Reatores Nucleares Pequenos: AIEA Alerta Que SMRs Não São A “Panaceia” Energética Prometida, Apesar do Interesse Global

AIEA Cautelosa com o Entusiasmo em Torno dos Reatores Nucleares Pequenos (SMRs)

O apelo por novas fontes de energia nuclear tem impulsionado o interesse em Pequenos Reatores Modulares (SMRs), tecnologias apresentadas como uma solução flexível e mais acessível. No entanto, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) adverte que a narrativa de uma “bateria nuclear” a ser simplesmente comprada e utilizada ainda está longe de se concretizar.

Matthew van Sickle, da seção de Desenvolvimento de Infraestrutura Nuclear da AIEA, expressou ceticismo sobre o otimismo em torno dos SMRs. Ele enfatiza que, embora atraentes, a viabilidade em escala e o funcionamento prático ainda precisam ser comprovados.

Brianna Lazerwitz, colega de Van Sickle na AIEA, complementou que “tamanho não importa” quando se trata de novas tecnologias nucleares. Assim como qualquer inovação no setor, os SMRs enfrentarão um rigoroso processo regulatório, que pode se estender por uma a duas décadas em diferentes países.

A agência da ONU, em um seminário em Viena, destacou que países em desenvolvimento, especialmente na África e Ásia, demonstram grande interesse nos SMRs. Lazerwitz aconselha cautela, recomendando que nações que estão iniciando sua jornada na energia nuclear priorizem tecnologias já testadas e comprovadas.

Conforme apurado pela Folhapress, a AIEA reconhece que os SMRs podem oferecer ganhos na velocidade de construção em comparação com usinas tradicionais, que demandam anos em desenvolvimento e construção. Contudo, a necessidade de novos padrões de segurança, dada a natureza da energia nuclear, levanta questionamentos sobre o otimismo desenfreado.

A Corrida Tecnológica e a Demanda Crescente por Energia

O recente interesse em reatores nucleares, incluindo os SMRs, é alimentado pela urgência climática, pela instabilidade geopolítica e pela crescente demanda por energia, especialmente da indústria de tecnologia e inteligência artificial (IA). A Bloomberg Intelligence projetou um aumento de 63% na demanda por novos reatores nos EUA até 2050, movimentando US$ 350 bilhões.

A energia nuclear é vista como uma fonte limpa, crucial para o cumprimento de metas de redução de carbono. Apesar das preocupações com o manejo de resíduos de urânio e o risco de acidentes, a necessidade de diversificar matrizes energéticas tem ganhado força. Eventos como as guerras na Ucrânia e no Irã também evidenciaram os riscos geopolíticos associados a fontes de energia fóssil.

O Brasil já manifestou interesse em negócios com a Rússia, que propôs versões fluviais de seus reatores para a Amazônia, baseadas na barcaça “Acadêmico Lomonosov”. Atualmente, a Rússia e a China são os únicos países a operar SMRs, embora a tecnologia esteja sendo impulsionada globalmente.

Regulamentação e Segurança: Desafios para os SMRs

A AIEA está ativamente envolvida em estudos e trabalhos de regulamentação e segurança para os SMRs. Embora não possua poder de veto, a chancela da agência é fundamental para a aceitação comercial dessas tecnologias. Dezenas de estudos estão em andamento para avaliar a nova tecnologia nuclear.

Atualmente, existem cerca de 7 reatores em diferentes fases de construção globalmente. Um dos projetos notáveis é o da TerraPower, de Bill Gates, que firmou contrato com a Meta para fornecer energia para seus data centers. Os SMRs, que geram entre 10 MW e 300 MW, são parte importante das projeções da AIEA para o futuro da energia nuclear.

Projeções Futuras e o Legado de Fukushima

Em sua projeção mais otimista, a AIEA prevê que a produção global de energia nuclear possa saltar de 377 GW para 992 GW até 2050, com um aumento de 24% vindo dos SMRs. Mesmo em um cenário de crescimento mais modesto, a energia nuclear deve expandir significativamente.

O acidente de Fukushima, em 2011, elevou os padrões de segurança no setor. Juroj Rovny, chefe da divisão de Segurança Operacional da AIEA, ressalta que, embora toda atividade humana envolva riscos, a indústria aprendeu a minimizar esses perigos. As convenções sobre acidentes nucleares surgiram após o desastre de Tchernóbil em 1986.

Fukushima demonstrou a importância de considerar eventos extremos, como tsunamis de grande magnitude. O acidente ocorreu não pela falha dos reatores em si, mas pela inundação das linhas de transmissão e geradores de emergência por ondas de até 15 metros.

A Busca por Energia Limpa e a Nova Fronteira da Fusão Nuclear

Além dos SMRs, outras tecnologias promissoras estão em desenvolvimento, com destaque para os reatores de fusão nuclear. Cerca de 80 startups estão investindo bilhões de dólares na promessa de uma fonte de energia ainda mais abundante e limpa.

Martin Pospisil, da Autoridade Regulatória Nuclear da Eslováquia, indica que o país está analisando a adoção de SMRs, prevendo um aumento significativo no consumo de energia até 2050. Atualmente, a Eslováquia depende majoritariamente de suas usinas nucleares tradicionais, com planos de ativar um novo reator equipado com sistemas ocidentais.

A dependência de combustível nuclear russo, no entanto, apresenta desafios geopolíticos, especialmente no contexto da Guerra da Ucrânia. O país europeu, contudo, assegura ter estoques estratégicos para muitos anos, buscando manter a estabilidade energética diante das complexidades internacionais.

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