O Efeito Inesperado dos Aplicativos na Inflação Brasileira
A forma como trabalhamos está passando por uma transformação profunda, impulsionada pela tecnologia e pela ascensão dos aplicativos. Essa mudança, que permite uma rápida transição do emprego formal para o informal, pode ter um impacto significativo na economia brasileira. Economistas apontam que essa nova dinâmica pode limitar a queda da massa de rendimentos e, consequentemente, atrasar a convergência da inflação para a meta de 3% estabelecida pelo Banco Central.
Mesmo com a persistência de juros elevados e os primeiros sinais de desaceleração econômica, a maioria dos especialistas prevê um atraso na queda da inflação. A razão principal reside na capacidade do mercado de trabalho, especialmente através de plataformas digitais, de absorver trabalhadores desempregados e manter um certo nível de renda circulando na economia.
O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) registrou em 2025 a abertura de 1,27 milhão de empregos formais, o pior saldo anual desde 2020. Contudo, a taxa média de desemprego no mesmo ano foi de 5,6%, a menor da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE, que considera tanto empregos formais quanto informais. Essa aparente contradição é explicada pela resiliência do mercado informal, especialmente o mediado por aplicativos.
O Crescimento dos “Plataformizados” e sua Renda
O rendimento médio real do trabalho em 2025 apresentou um aumento de 5,7% em relação ao ano anterior, atingindo R$ 3.560. A massa de rendimentos real habitual subiu 6,4% no trimestre de outubro a dezembro, reforçando a tese de que a taxa Selic pode não ser suficiente para controlar totalmente o mercado de trabalho. O economista André Perfeito destaca que essa melhora nos indicadores reflete mudanças microeconômicas, como os novos arranjos trabalhistas e o trabalho por conta própria, incluindo a dinâmica aspiracional de ser seu próprio chefe.
Estudos do próprio IBGE, baseados na Pnad, revelaram que trabalhadores de plataformas digitais, como aplicativos de transporte e entrega, possuem uma renda média maior do que aqueles que não atuam por esses meios. Em 2025, o rendimento médio dos “plataformizados” foi de R$ 2.996, contra R$ 2.875 dos demais. Essa diferença, no entanto, vem acompanhada de jornadas de trabalho mais longas, com os trabalhadores de aplicativos dedicando, em média, 44,8 horas semanais, comparado a 39,3 horas dos outros.
Aplicativos como “Colchão de Renda”
O número de trabalhadores em aplicativos cresceu cerca de 25% entre 2022 e 2024, alcançando pelo menos 1,7 milhão de pessoas. Daniel Duque, pesquisador da FGV Ibre, aponta que a popularização desses aplicativos contribui para as mínimas históricas do desemprego no Brasil. Ele estima que, sem o trabalho via plataformas, a taxa de desocupação poderia ser até 1 ponto percentual mais alta.
Duque enfatiza que os aplicativos funcionam como um “colchão de renda”, amortecendo perdas mais agudas em momentos de crise. Para os grupos mais propensos a ingressar nesse segmento, os aplicativos não só ampliam as oportunidades de ocupação, mas também elevam a renda em relação a outros perfis de trabalhadores, chegando a uma diferença de até R$ 300. Essa dinâmica é vista como um “programa de emprego garantido” pela sua alta demanda e acessibilidade.
Visão Contrária e a Composição do Emprego
Por outro lado, o economista Henrique Danyi, do Santander, expressa dificuldade em encontrar evidências de que o mercado informal esteja absorvendo massivamente trabalhadores dispensados do setor formal. Ele aponta que o nível de emprego formal tem se mantido resiliente, com a taxa de formalidade em patamares recordes desde 2023, conforme dados do Caged. Danyi sugere que a discussão deveria focar mais na mudança da composição da alocação de emprego.
Ele também ressalta que trabalhadores por conta própria com CNPJ não devem ser classificados como informais, argumentando que a flexibilidade atual do mercado de trabalho é mais uma questão de alocação do que de uma virada expressiva do emprego formal para o informal. Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, prevê que a taxa de desemprego fechará 2026 em 6%, acima dos 5,1% de 2025, mas ainda assim um número considerado baixo, considerando a desaceleração econômica observada.
O Futuro da Inflação e a Influência dos Aplicativos
A persistência de uma massa de rendimentos relativamente aquecida, mesmo com a desaceleração econômica, é o principal fator que pode atrasar a convergência da inflação para a meta. A capacidade dos aplicativos de oferecerem oportunidades de trabalho e renda, mesmo que com jornadas mais longas, garante uma demanda que pode sustentar o consumo e, por consequência, a pressão inflacionária.
As projeções indicam que, apesar dos esforços do Banco Central em controlar a inflação com juros altos, a nova realidade do mercado de trabalho, com forte influência dos aplicativos, pode exigir um período mais prolongado para que a meta de 3% seja plenamente alcançada. A dinâmica entre oferta de trabalho, renda e consumo no Brasil está sendo redefinida, e os aplicativos surgem como um elemento central nessa transformação econômica e social.




