A polarização política brasileira parece ter contornos mais fluidos do que se imaginava, com petistas se identificando à direita e bolsonaristas à esquerda, segundo revelou uma pesquisa recente do Datafolha. O estudo aponta para uma aparente contradição que desafia as definições tradicionais de espectro político e o comportamento eleitoral.
Uma pesquisa divulgada pelo Datafolha nesta semana trouxe à tona dados surpreendentes sobre a autopercepção ideológica dos eleitores brasileiros. O levantamento indica que uma parcela significativa de simpatizantes do PT se declara de direita ou centro-direita, enquanto um contingente relevante de apoiadores de Jair Bolsonaro se identifica com a esquerda ou centro-esquerda.
Esses resultados, que podem parecer contraintuitivos em um cenário político tão polarizado, levantam questões importantes sobre a construção das identidades políticas no país. A influência de fatores como carisma de líderes, falta de clareza conceitual e a própria dinâmica da polarização são apontados como possíveis explicações para esse fenômeno.
A pesquisa, realizada entre os dias 2 e 4 de dezembro com 2.002 pessoas em 113 municípios, utilizou escalas para classificar os entrevistados. Petistas foram definidos como aqueles que se posicionaram nas posições 4 e 5 em uma escala de 1 (bolsonarista) a 5 (petista). Já bolsonaristas foram classificados nas posições 1 e 2. O espectro ideológico foi medido em uma escala de 1 (máximo à esquerda) a 7 (máximo à direita).
Petistas e a identificação com a Direita
Os dados do Datafolha revelam que cerca de um terço dos petistas (34%) se consideram de direita ou centro-direita. Complementando essa análise, 9% se identificaram como centro, enquanto 47% se declararam de esquerda ou centro-esquerda. Outros 9% não souberam responder ou se classificar.
Bolsonaristas e a identidade de Esquerda
Por outro lado, a maioria dos bolsonaristas (76%) se alinha à direita ou centro-direita, como esperado. No entanto, um número relevante de 14% desses eleitores se identifica como de esquerda ou centro-esquerda. Apenas 2% não souberam responder, e 8% se declararam de centro.
Análise de Especialistas: Carisma, Valores e Polarização
Cientistas políticos ouvidos pela Folha apontam diversas razões para essa aparente incongruência. Bruno Bolognesi, professor da UFPR, sugere que a falta de clareza conceitual e a força do carisma de Lula e Bolsonaro podem explicar o fenômeno. Para ele, a identificação política está cada vez mais ligada a valores pessoais.
Bolognesi exemplifica que um petista de longa data pode ser conservador em costumes, enquanto um bolsonarista evangélico pode apoiar políticas assistenciais. Essa sobreposição de identidades torna a classificação ideológica mais complexa do que as etiquetas tradicionais sugerem.
Identidades Políticas Flexíveis
Elias Tavares, outro cientista político, concorda que a pesquisa evidencia a separação entre a identidade ideológica formal (direita/esquerda) e a identidade política concreta (petismo/bolsonarismo). Ele argumenta que o eleitor pode apoiar um partido por questões conjunturais ou de identificação com o líder, mantendo posições de direita em outros temas, como segurança pública.
Tavares também destaca que a polarização extrema pode levar a escolhas binárias, onde o rótulo “petista” ou “bolsonarista” funciona mais como um marcador de pertencimento a um lado da disputa do que como uma adesão completa a um conjunto ideológico.
Liderança e Populismo como Fatores Determinantes
Para Luis Gustavo Teixeira, doutor em ciência política, o eleitorado brasileiro tende a se vincular mais diretamente aos líderes do que a corpos teóricos de esquerda ou direita. Ele observa que, na América Latina, as influências políticas frequentemente se conectam a elementos do pensamento político de líderes populistas.
Marcus Ianoni, professor da UFF, levanta a possibilidade de que a própria formulação das perguntas no Datafolha possa ter influenciado os resultados. Ele sugere que uma maior explicitação dos conceitos de esquerda e direita, e a coleta da percepção dos entrevistados sobre esses termos em relação ao bolsonarismo e petismo, poderiam oferecer um quadro ainda mais detalhado.




