Saída de estrangeiros da Bolsa de Valores estanca em julho, mas incertezas políticas e externas ditam cautela para o 2º semestre

Bolsa de Valores: Estrangeiros voltam a investir no Brasil em julho, mas cautela predomina para o restante do ano
Após dois meses consecutivos de saídas expressivas, o capital estrangeiro deu uma pausa em julho, injetando R$ 2,558 bilhões na B3. Esse movimento elevou o saldo acumulado do ano para R$ 36,406 bilhões, superando em 81% o mesmo período do ano anterior. No entanto, as expectativas para o segundo semestre apontam para um fluxo mais moderado e menos linear, diante de um cenário global e doméstico repleto de incertezas, incluindo o impacto das eleições presidenciais.
A retomada do fluxo de investimentos estrangeiros em julho teve um efeito direto na performance da Bolsa brasileira. O Ibovespa, principal índice da B3, registrou uma alta de 3,5% no mês, marcando o primeiro desempenho mensal positivo desde fevereiro. O EWZ, principal ETF (fundo de índice) de ativos brasileiros negociado em Nova York, também acompanhou a tendência, com uma valorização de 6,23%.
A notícia sobre a interrupção da saída de capital estrangeiro e a consequente alta na Bolsa brasileira foram divulgadas pelo Estadão Conteúdo, com reportagem de Luísa Laval, Maria Regina Silva e Caroline Aragaki. A análise sugere que, apesar do alívio em julho, o cenário para os próximos meses exige atenção a fatores macroeconômicos e políticos.
Petróleo e rotação global impulsionam entrada de capital
A escalada das tensões no Oriente Médio, a rotação global de investimentos saindo de setores de tecnologia e o alívio nas curvas de juros internacionais foram fatores cruciais para a reversão do fluxo estrangeiro em julho. O impacto das tarifas adicionais impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros teve pouca influência, uma vez que produtos de exportação relevantes foram isentos. O setor de petróleo na B3 foi o grande destaque, com as ações da Petrobras (ON +17,4% e PN +14,9%) e da Prio (+16,7%) liderando os ganhos. Marcelo Nantes, CEO da Kosmos Capital Group, ressalta que a valorização do petróleo ajudou a reduzir o risco-país e atraiu recursos para produtores brasileiros.
Brasil volta a ser alternativa em diversificação global
A rotação global de portfólios, que busca reduzir a exposição à cadeia de inteligência artificial em meio a receios de uma bolha, tem reposicionado o Brasil como uma alternativa de investimento. Analistas do Itaú BBA destacam que, apesar dos riscos relacionados a juros elevados e incerteza fiscal, a Bolsa brasileira ainda negocia a múltiplos atrativos e oferece exposição a setores com baixa correlação com tecnologia. William Jackson, economista-chefe de Mercados Emergentes da Capital Economics, avalia que o Brasil, como beneficiário líquido de preços mais altos de energia, pode continuar a atrair capital estrangeiro.
Cenário doméstico: Inflação em queda e cortes na Selic animam o mercado
No âmbito doméstico, a desaceleração da inflação e as expectativas de cortes na taxa Selic contribuíram para aquecer o mercado. A decisão do Banco Central de reduzir a taxa básica em 0,25 ponto percentual, para 14%, reforçou as apostas em novos cortes. O Itaú BBA ajustou sua projeção para a taxa Selic ao fim do ciclo, esperando agora 13,75%, o que é visto como um sinal positivo para a narrativa de ativos domésticos. A desaceleração do IPCA-15 em julho fortaleceu essa perspectiva, indicando um ambiente mais favorável para investimentos internos.
Incertezas políticas e fiscais pesam no segundo semestre
Apesar do saldo positivo em julho, o mercado não espera repetir os fortes fluxos de capital estrangeiro observados até abril. A cautela predomina, e analistas apontam que o movimento de julho foi mais uma realocação global do que uma melhora estrutural do Brasil. Daniel Nogueira, head de Alocação da InvestSmart XP, enfatiza que fatores externos, como o conflito no Oriente Médio e a atratividade da renda fixa em países desenvolvidos, influenciaram a reversão. Para o segundo semestre, a proximidade das eleições e a pauta fiscal ganham peso nas decisões dos investidores estrangeiros. O compromisso dos candidatos com a disciplina das contas públicas será um fator determinante, com o mercado avaliando de perto a estabilidade institucional e a trajetória da inflação e dos juros, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Bruno Takeo, estrategista da S4 Consultoria, relata que há interesse, mas o investidor estrangeiro busca um gatilho para alocar recursos de forma consistente.