Safra Recorde de Cana-de-Açúcar Impulsiona Oferta de Etanol e Pressiona Preços: Produtores Enfrentam Custos Altos Apesar da Colheita Farta

Produção de cana-de-açúcar em alta: um cenário de abundância para o etanol, mas com desafios para o campo

A oferta de etanol nas bombas pode estar mais farta e com preços mais baixos para o consumidor, mas por trás dessa realidade existe uma complexa cadeia produtiva que se inicia no campo. A alta na produção de cana-de-açúcar, um dos principais motores desse cenário, reflete a recuperação agrícola e o avanço do etanol de milho, mas não significa um alívio imediato para os produtores rurais, que lidam com custos crescentes.

O etanol, encontrado em Belo Horizonte por cerca de R$ 2,99 em alguns postos, tem seu valor final influenciado por uma série de fatores que vão muito além da colheita. A produtividade no campo, os custos de produção e toda a logística até chegar ao consumidor final desempenham papéis cruciais na formação do preço.

Conforme informações da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), em Minas Gerais, a safra 2026/27 de cana-de-açúcar deve atingir 82,5 milhões de toneladas, um aumento de 7,0% em relação à temporada anterior. Esse crescimento é resultado tanto da expansão da área cultivada quanto da melhoria na produtividade dos canaviais. Esse cenário, que beneficia o mercado de etanol, foi divulgado pelo Diário do Comércio.

Fatores climáticos e tecnológicos impulsionam a safra de cana

As condições climáticas favoráveis foram determinantes para a perspectiva positiva na produção de cana-de-açúcar. O produtor Humberto de Campos Maciel, integrante da Comissão Técnica de Cana-de-Açúcar da Faemg, destaca que as chuvas intensas e bem distribuídas ao longo da safra contribuíram significativamente para o desenvolvimento dos canaviais. A expectativa é de uma safra nacional entre 5% e 7,5% maior, podendo alcançar entre 640 milhões e 650 milhões de toneladas de cana.

A tecnologia também se mostra uma aliada fundamental na busca por maior eficiência e produtividade. A escolha de variedades de cana mais resistentes e produtivas, o manejo adequado do solo com aplicação precisa de fertilizantes, a irrigação e o uso de sistemas orientados por satélite são estratégias cada vez mais adotadas. O plantio em curvas de nível orientadas por satélite, por exemplo, otimiza a colheita, reduz danos às raízes e melhora o aproveitamento da planta.

A irrigação, em particular, tem o potencial de ampliar a produtividade e estender a vida útil dos canaviais. Segundo Maciel, a combinação de diferentes tecnologias e práticas de manejo já permite, em algumas regiões, dobrar a produtividade, saltando de 80 para 160 toneladas por hectare.

Desafios na cadeia produtiva e pressão nos custos para o produtor

Apesar do cenário de maior oferta de etanol, o produtor rural enfrenta uma realidade de preços pressionados e custos de produção elevados. O valor pago na bomba de combustível é significativamente diferente do valor recebido pelo produtor, pois a cadeia envolve a indústria, o transporte, a distribuição, tributos e outros intermediários.

Humberto de Campos Maciel aponta que a remuneração da cana é influenciada pelo preço do açúcar no mercado internacional. A queda nas cotações na Bolsa de Nova York pressionou o valor do ATR (Açúcares Totais Recuperáveis), indicador chave na remuneração da cana, ao mesmo tempo em que o custo de fertilizantes e outros insumos aumentou. Essa combinação aperta as margens de lucro do produtor.

A analista de agronegócio do Sistema Faemg Senar, Nathália Rabelo, enfatiza a importância do planejamento e da assistência técnica para a aplicação correta da tecnologia. Cada canavial possui características únicas que exigem estratégias específicas, desde a análise do solo e a escolha das variedades até o manejo nutricional e o controle de pragas. A assistência técnica ajuda a transformar dados em decisões mais eficientes, otimizando o uso de insumos e controlando custos.

Mercado de etanol reage à maior oferta e ao etanol de milho

A recuperação da produção de cana-de-açúcar ocorre em um momento de maior oferta de etanol, também impulsionada pelo crescimento na produção de etanol a partir do milho. Contudo, o mercado tem apresentado sinais de reação. Recentemente, o preço do etanol hidratado ao produtor em São Paulo subiu 8,2%, atingindo R$ 2,1955 por litro, e o etanol anidro avançou 6,6%, para R$ 2,5078, segundo levantamento da consultoria Datagro.

Nathália Rabelo conclui que o preço do etanol está diretamente ligado à variação entre oferta e demanda. Por trás desse combustível, existe uma cadeia produtiva complexa e um trabalho técnico diário realizado pelos produtores de cana, que são os pilares dessa produção. A expertise desses produtores é fundamental para garantir a disponibilidade e a qualidade do etanol que chega aos consumidores.

Botão Voltar ao topo