TRF6 em Cena: O Futuro do Rodoanel Metropolitano de Minas Gerais Sob Análise Judicial
O ambicioso projeto do Rodoanel Metropolitano, com um investimento previsto de R$ 3 bilhões, encontra-se em um impasse judicial, aguardando a decisão final do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6). A disputa coloca em lados opostos o governo de Minas Gerais e a Federação das Comunidades Quilombolas do Estado de Minas Gerais – N’Golo, levantando questões cruciais sobre direitos de comunidades tradicionais e o avanço de obras de infraestrutura.
De um lado, o Estado mineiro afirma, em nota oficial, que busca há dois anos um diálogo transparente e respeitoso com a Federação de Quilombolas. Contudo, o advogado da Federação, Matheus de Mendonça Gonçalves Leite, contesta essa versão, alegando que o governo tem agido de má fé, sem a devida transparência e respeito aos direitos das comunidades que serão diretamente impactadas pelo traçado proposto.
A controvérsia gira em torno da Consulta Livre, Prévia e Informada (CLPI), um direito garantido às comunidades tradicionais. Conforme apurado pelo Diário do Comércio, o governo alega ter concluído a CLPI com outros grupos, como carroceiros, ciganos e de matriz africana, seguindo a legislação. No entanto, a Federação de Quilombolas aponta que o próprio governo identificou, em estudo de impacto ao Patrimônio Cultural sob sigilo, 170 povos e comunidades tradicionais afetados, informação que só veio à tona após um vazamento do conteúdo.
Governo X Comunidades: O Coração do Conflito Judicial
O governo de Minas Gerais ressalta que os recursos financeiros para a execução do Rodoanel já estão assegurados, aguardando apenas a conclusão da CLPI para prosseguir com o licenciamento ambiental e o início das obras. A obra é vista como estratégica para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), com promessas de diluição do tráfego, redução do tempo de viagem e a retirada de cerca de 5 mil caminhões por dia da área urbana, além de uma estimativa de prevenção de mil acidentes anuais.
Em contrapartida, o advogado da Federação de Quilombolas argumenta que a alteração do traçado, especialmente na região de Várzea das Flores, um dos últimos espaços de mata e água preservados na RMBH e local de rituais religiosos para povos de matriz africana, tem sido uma reivindicação central. Apesar de o governo ter mencionado em recursos judiciais a possibilidade de alteração, o governador Mateus Simões teria afirmado em audiência de conciliação que o traçado é imutável.
Alternativas em Jogo e Expectativas para a Decisão do TRF6
Diante do impasse, o governador Mateus Simões chegou a declarar que, caso o projeto do Rodoanel não avance por questões judiciais, os recursos seriam realocados para outras frentes de mobilidade, como a ampliação do metrô da RMBH. A nota do governo confirma essa possibilidade, indicando que, se o projeto for paralisado, os fundos podem ser direcionados para outras ações de infraestrutura.
A Federação das Comunidades Quilombolas, por sua vez, espera que o TRF6 determine que as 170 comunidades tradicionais identificadas sejam ouvidas por órgãos federais competentes, como a Fundação Cultural Palmares ou o Ministério da Igualdade Racial, e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Além disso, a entidade anseia por uma decisão que contemple a alteração do traçado do Rodoanel, ao menos na região de Várzea das Flores, em respeito aos direitos religiosos e culturais das comunidades afetadas.
A decisão do TRF6 será crucial não apenas para o futuro do Rodoanel Metropolitano, mas também para a definição de como projetos de grande porte dialogarão com os direitos e a preservação das comunidades tradicionais em Minas Gerais.





