Economista Paulo Narcélio Amaral alerta para fragilidades na gestão financeira e aponta soluções para empresas evitarem a recuperação judicial
O Brasil vivencia um cenário de aumento expressivo nas recuperações judiciais e extrajudiciais em 2025 e 2026. Esse fenômeno, impulsionado por juros elevados, crédito restrito e custos de capital em alta, afeta empresas de todos os portes e setores, como demonstram casos de grandes companhias. A situação exige uma reflexão profunda sobre a gestão financeira corporativa.
Grandes nomes como Americanas, Oi, Raízen e Grupo Pão de Açúcar estão entre os que enfrentam dificuldades, evidenciando que a solidez financeira não é garantia contra crises. Falhas de governança e a gestão de caixa em conjunturas econômicas adversas são pontos comuns nesses episódios.
Conforme análise do economista Paulo Narcélio Simões Amaral, especialista em reestruturação empresarial, o aumento dos pedidos de recuperação judicial vai além da conjuntura econômica, revelando fragilidades estruturais na gestão. “Muitas empresas ainda operam com baixo nível de planejamento financeiro e pouca previsibilidade de caixa, o que amplia o risco de colapso diante de choques externos”, afirma. As informações são do Monitor RGF de Recuperação Judicial, que aponta recorde histórico em 2025 com aumento de 24%.
Juros altos e crédito restrito pressionam empresas
O atual ciclo econômico, marcado pelo aumento das taxas de juros, dificulta o acesso a financiamentos e crédito, impactando diretamente o fluxo de caixa das empresas. Essa restrição gera um ciclo de endividamento e dificuldades operacionais que se agrava com a inflação de insumos, volatilidade cambial e mudanças tributárias, que comprimem as margens de lucro.
Essa combinação de fatores frequentemente leva a um desequilíbrio financeiro progressivo. A recuperação judicial surge, nesse contexto, como um instrumento legal para permitir que empresas em dificuldade reorganizem suas obrigações, visando preservar atividades e empregos. Contudo, seu sucesso depende de disciplina organizacional e capacidade de negociação com credores.
Planejamento de caixa, negociação e governança são essenciais
Paulo Narcélio destaca que o problema central reside na falta de planejamento operacional e na pouca antecipação de riscos. “A recuperação judicial muitas vezes é acionada tardiamente, quando a empresa já perdeu capacidade de geração de caixa e confiança do mercado. O ideal é atuar preventivamente, com reestruturações financeiras antes do colapso”, explica.
Para evitar crises financeiras profundas, o economista aponta três pilares fundamentais: planejamento de caixa, negociação estruturada com credores e fortalecimento da governança corporativa. O planejamento de caixa deve ser contínuo e baseado em cenários realistas, projetando receitas, despesas e obrigações financeiras com antecedência, considerando possíveis variações econômicas.
“Gestão de liquidez não é apenas controle operacional, é estratégia de sobrevivência”, ressalta Amaral. Relações transparentes e antecipadas com credores podem evitar a judicialização de dívidas e preservar a reputação da empresa. Em um mercado de crédito mais seletivo, a confiança com bancos e fornecedores torna-se um ativo crucial.
Governança corporativa robusta como escudo contra crises
A governança corporativa assume um papel central na resiliência das empresas. Estruturas mais robustas, com controles internos eficientes, auditorias e uma sólida gestão de riscos, são fundamentais para a tomada de decisões mais assertivas, especialmente em momentos de instabilidade.
A atual onda de recuperações judiciais serve como um alerta para o mercado. Empresas que investirem em gestão financeira estruturada, governança e planejamento terão mais condições de atravessar ciclos adversos. As demais tendem a enfrentar dificuldades cada vez maiores em um ambiente econômico mais exigente, segundo Paulo Narcélio.
Reestruturação empresarial: uma necessidade estratégica
A tendência é que a reestruturação empresarial ganhe protagonismo nos próximos anos, não apenas como resposta a crises, mas como uma ferramenta estratégica de gestão. A complexidade e o dinamismo do ambiente de negócios exigem modelos mais sofisticados de controle financeiro, avaliação de riscos e planejamento de longo prazo.
A capacidade de adaptação será determinante para a sobrevivência e o crescimento sustentável. Paulo Narcélio conclui que a gestão financeira precisa transcender o operacional e ocupar um papel central na estratégia das empresas. “Quem entender isso mais cedo terá vantagem competitiva em um cenário que tende a permanecer desafiador nos próximos anos”, finaliza.





