Economistas veem cenário desafiador para o crescimento do PIB brasileiro em 2026, com juros altos freando a economia
A meta de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil acima de 2% em 2026, projetada pelo Ministério da Fazenda e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), parece cada vez mais distante, segundo a avaliação de economistas. Novos dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam uma perda de fôlego em setores cruciais da economia.
As projeções mais recentes de varejo, indústria e serviços sinalizam uma desaceleração, impactada diretamente pela política de juros altos adotada para controlar a inflação. Essa conjuntura levanta preocupações sobre a sustentabilidade do crescimento econômico nos próximos anos.
A análise de diversos especialistas aponta para um cenário de maior cautela, contrastando com as previsões mais otimistas. O impacto dos juros elevados começa a ser sentido, e a expectativa é de que essa tendência de arrefecimento se consolide, dificultando o alcance de um crescimento robusto.
Perda de Ritmo em Setores-Chave
Os números divulgados pelo IBGE reforçam essa visão. O volume de vendas do varejo, por exemplo, registrou um crescimento tímido de 0,5% em junho, após variações modestas em maio e uma queda significativa em abril. O varejo ampliado, que inclui setores como veículos e material de construção, apresentou uma retração de 1% em junho, marcando o quarto mês consecutivo de baixas.
O setor de serviços, um dos pilares da economia, ficou estável em junho (0%), após um leve recuo no mês anterior. Já a produção industrial mostrou uma queda mais acentuada de 1,8% em junho, acumulando o segundo resultado negativo consecutivo. Esses indicadores isolados já seriam motivo de atenção, mas o que preocupa os economistas é a convergência desses sinais de desaceleração.
Juros Altos e Seus Efeitos na Economia
Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, destaca que os juros estão começando a surtir o efeito esperado. “Era natural que a economia começasse a desacelerar com mais intensidade. Isso reforça a ideia de que PIB acima de 2% este ano está ficando cada vez mais difícil”, afirma Vale. Ele projeta uma alta de 1,7% para o PIB em 2026, argumentando que seria necessária uma aceleração significativa da economia, o que não se observa no momento.
A mediana das projeções do mercado financeiro, conforme o boletim Focus do Banco Central, aponta para uma expansão de 1,98% para o PIB em 2026, uma leve redução em relação à semana anterior. André Valério, economista do banco Inter, considera “pouco provável” que o crescimento se sustente acima de 2% em 2026, prevendo 1,8% para o ano. Ele observa “sinais cada vez mais claros de perda de dinamismo”, mesmo com os incentivos fiscais do governo.
Desaceleração Generalizada e Impacto no Consumo
Rodolpho Sartori, da consultoria Buysidebrazil, nota que a desaceleração econômica tornou-se mais “homogênea”, afetando diversas atividades. Ele atribui essa tendência ao aperto dos juros e a uma base de comparação elevada dos anos anteriores. A Buysidebrazil projeta uma alta de 1,9% para o PIB em 2026. Sartori considera a desaceleração “saudável”, pois evita pressões inflacionárias.
Alexandre Maluf, economista da XP, comentou que o consumo das famílias perdeu força no segundo trimestre, o que é “consistente” com uma desaceleração gradual da demanda doméstica. Embora a renda e os estímulos governamentais devam sustentar o consumo no curto prazo, a política de juros e o endividamento das famílias pesam sobre atividades sensíveis ao crédito. A XP espera um PIB de 2% em 2026.
Perspectivas para 2026 e Cenário Pós-Pandemia
Se as projeções dos analistas se confirmarem, 2026 poderá marcar o primeiro ano com variação do PIB inferior a 2% desde 2020, quando a economia sofreu uma retração de 3,3% devido à pandemia. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, apesar de ter reduzido a taxa básica de juros para 14% ao ano, sinaliza que a inflação ainda requer juros em patamar elevado para frear a economia.
A busca por um crescimento sustentável em 2026, portanto, enfrentará desafios consideráveis. A interação entre a política monetária restritiva, o endividamento das famílias e a perda de fôlego em setores produtivos moldará o desempenho da economia brasileira no próximo ano, tornando a meta de 2% de expansão do PIB um objetivo cada vez mais difícil de ser alcançado.




