Natura Lida com Crise Interna Após Receita Cair para R$ 5,17 Bilhões no 2º Trimestre de 2026
A Natura, um dos ícones do setor de cosméticos no Brasil, enfrenta um período de turbulência. O segundo trimestre de 2026 apresentou um cenário desafiador, com queda nas vendas, escassez de produtos e dificuldades na implementação de mudanças estratégicas em suas operações.
A receita líquida consolidada atingiu R$ 5,17 bilhões, uma retração de 9,1% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O Brasil foi o principal motor dessa queda, com a receita da operação brasileira recuando 14,8%, totalizando R$ 3,07 bilhões.
Embora a empresa aponte um ambiente de consumo mais retraído, a administração da Natura admite que uma parcela significativa da frustração com os resultados advém de problemas internos. Conforme divulgado pela fonte, entre os fatores que impactaram o desempenho estão mudanças comerciais, a implantação de novos sistemas, a transição do modelo de franquias e desafios na cadeia de suprimentos.
Falta de Produtos Prejudica Consultoras e Vendas
A indisponibilidade de itens foi um dos obstáculos mais significativos no trimestre. Essa escassez afetou diretamente a produtividade das consultoras, um canal de vendas considerado estratégico pela Natura. O CEO João Paulo Ferreira informou que a empresa já conseguiu reduzir consideravelmente o problema, operando com menos da metade do pico de falta de produtos.
A normalização dos estoques é vista como um indicador crucial para os próximos meses. Quando produtos essenciais ficam indisponíveis, as consultoras podem perder vendas e os consumidores podem buscar alternativas em concorrentes. O desempenho das marcas reforça essa pressão, com vendas da Natura caindo 14,5% e da Avon, 22,5% no Brasil.
Implementação do SAP e Mudanças Comerciais Geram Complexidade
A implementação do novo sistema de gestão SAP, concluída no primeiro trimestre, gerou estresse na cadeia de suprimentos devido a uma interrupção planejada. Após a retomada, a Natura identificou desequilíbrios em outro sistema de planejamento integrado, com parâmetros mal configurados, resultando em dificuldades de planejamento e falta de produtos específicos. Esse episódio evidencia os riscos inerentes a transformações tecnológicas em grandes empresas.
Paralelamente, a Natura promoveu alterações em suas políticas de preços e regras comerciais entre canais, buscando uniformizar condições para consultoras e consumidores. A migração completa de contratos de franquia para um modelo baseado em vendas efetivas (sell out) também exigiu adaptação dos franqueados, que temporariamente ajustaram seus estoques, pressionando a receita do trimestre. Um efeito tributário relacionado à substituição tributária do ICMS em São Paulo também foi mencionado.
Lucro Líquido em Queda Livre e Resiliência nos Mercados Hispânicos
Além da retração nas vendas, o lucro líquido da Natura despencou 92,1%, registrando R$ 35 milhões no período. Um dos fatores foi uma deterioração de aproximadamente R$ 320 milhões no resultado financeiro líquido, atribuída a custos de liquidação de derivativos e efeitos cambiais contábeis desfavoráveis. O Ebitda consolidado recuou 5,9%, chegando a R$ 620 milhões.
Em contrapartida, os mercados hispânicos da América Latina apresentaram uma recuperação, com receita de aproximadamente R$ 2,1 bilhões, um crescimento de 0,7% em reais e 7,2% em moeda constante. O Ebitda dessa operação avançou significativamente, 92,7%, totalizando R$ 160 milhões, ajudando a mitigar parcialmente os problemas no Brasil.
Redução de Dívida e Mudança de Expectativa para Margem em 2026
Apesar do trimestre desafiador, a Natura conseguiu reduzir sua dívida líquida para R$ 3,86 bilhões em junho de 2026, e a relação dívida líquida/Ebitda caiu para 2,06 vezes. A empresa gerou R$ 342 milhões em fluxo de caixa livre, auxiliando na compensação de despesas financeiras.
A Natura ajustou sua expectativa para a margem Ebitda em 2026, optando por não buscar expansão sobre os 14,1% de 2025. A estratégia visa preservar investimentos cruciais para o crescimento futuro, como marketing, pesquisa e desenvolvimento. A empresa ainda prevê gerar mais caixa em 2026 do que no ano anterior.
Cautela do Mercado e Expectativa com Entrada da Advent
Analistas mantêm uma postura cautelosa. O Citi e o BTG Pactual reiteraram recomendação neutra, destacando a recuperação hispânica, mas com ressalvas sobre a operação brasileira e a necessidade de melhoria na execução operacional. O Itaú BBA também manteve recomendação neutra, com baixa visibilidade sobre a velocidade de recuperação das receitas no Brasil.
A entrada da gestora americana Advent, com participação de aproximadamente 8% e indicação de dois conselheiros, aumenta as expectativas de melhorias na execução, estratégia de canais e eficiência operacional. Os próximos trimestres serão cruciais para determinar se os problemas enfrentados foram transitórios e se a Natura conseguirá retomar seu crescimento.




