Minas Gerais lidera ranking nacional de ocupação urbana em áreas de risco, com 14,5 mil hectares em encostas íngremes, segundo MapBiomas.
Em um cenário preocupante para a segurança de seus cidadãos, Minas Gerais se destaca como o estado brasileiro com a maior extensão de áreas urbanizadas em alta declividade. Isso significa que milhares de pessoas vivem em encostas íngremes, locais que representam um risco significativo de deslizamentos e outros desastres naturais, especialmente em períodos de chuvas intensas.
O dado alarmante foi divulgado pelo MapBiomas, por meio do seu Mapeamento Anual das Áreas Urbanizadas no Brasil. A informação surge em um momento crítico, após fortes chuvas terem causado tragédias no estado na semana passada, resultando em dezenas de mortes e um desaparecimento. A situação em Minas Gerais exige atenção imediata e medidas preventivas eficazes.
Conforme aponta o estudo, quase 14,5 mil hectares em Minas Gerais abrigam moradias em locais de risco. Para se ter uma dimensão, cada hectare equivale a 10 mil metros quadrados, uma área consideravelmente maior que um campo de futebol profissional. A reportagem, baseada nos dados do MapBiomas, detalha a extensão do problema e as cidades mais afetadas.
Juiz de Fora, um dos epicentros do perigo
A cidade de Juiz de Fora, localizada na Zona da Mata mineira e que foi severamente atingida pelas recentes chuvas, com registro de 65 mortes, figura como a terceira cidade brasileira com a maior área urbanizada em declive. Em 2024, o município possuía 1.256 hectares construídos em terrenos com inclinação acentuada, elevando o risco de deslizamentos para seus habitantes.
Ocupação de áreas de risco acelera mais que urbanização geral
O estudo do MapBiomas, que analisou a ocupação de cidades nos últimos 40 anos, revela um dado ainda mais preocupante: a ocupação de áreas de risco tem crescido em um ritmo mais acelerado do que a urbanização como um todo. Enquanto as áreas urbanas no Brasil expandiram 2,5 vezes no período, o aumento de construções em terrenos inclinados mais que triplicou.
Entre 1985 e 2024, a área urbanizada no país saltou de 1,8 milhão para 4,5 milhões de hectares, um crescimento anual médio de 70 mil hectares, o equivalente ao tamanho de uma cidade de médio porte. Em contrapartida, as áreas construídas em regiões com declividade acentuada e maior propensão à erosão e deslizamentos aumentaram de 14 mil hectares em 1985 para 43,4 mil hectares em 2024.
Mudanças climáticas e proximidade de rios intensificam vulnerabilidade
Mayumi Hirye, coordenadora do estudo, ressalta que o contexto das mudanças climáticas e a ocorrência de eventos climáticos extremos são fatores cruciais a serem considerados na expansão das cidades. Ela enfatiza que esses fenômenos afetam a todos, mas de forma mais drástica em áreas sensíveis e vulneráveis, onde a ocupação tem sido mais intensa.
Além das encostas íngremes, a proximidade de rios e córregos, essenciais para a drenagem natural das cidades, também representa um fator de maior exposição a enxurradas. Em 2024, o estudo identificou que 1,2 milhão de hectares de áreas urbanas no Brasil apresentam risco elevado de inundação devido a essa característica. O Rio de Janeiro lidera essa lista, com 108,2 mil hectares nessa situação, e a ocupação nessas áreas quase dobrou em 40 anos.
Edmilson Rodrigues, engenheiro ambiental do MapBiomas, explica que, historicamente, as cidades se formaram perto de corpos d’água, mas as mudanças climáticas acentuam os riscos dessa proximidade. Ele conclui que é fundamental monitorar a expansão urbana em margens fluviais para conservar o ambiente e garantir a qualidade de vida da população diante do aumento de eventos extremos.




