Logística do Agro: Filas Gigantes em Portos do Arco Norte Ameaçam Custos e Competitividade da Soja Brasileira

Acessos portuários pressionam custos e competitividade do agro

Em fevereiro de 2026, o pico da colheita da soja no Centro-Oeste revelou um cenário alarmante: filas de caminhões com até 40 quilômetros se formaram para acessar o Porto de Miritituba, no Pará. O problema, que se tornou recorrente, impacta diretamente transportadoras e produtores, gerando aumento de custos e incertezas no cumprimento de prazos de entrega.

A situação evidencia que a eficiência dos terminais portuários, por si só, já não é suficiente para garantir o fluxo da produção agrícola. Quando rodovias, ferrovias e hidrovias não acompanham o ritmo de crescimento do agronegócio, os gargalos logísticos se tornam inevitáveis. Isso resulta em uma cascata de problemas: caminhões parados, fretes mais caros, risco de perda de qualidade da carga e, consequentemente, pressão sobre o preço final dos produtos.

As longas filas se formam quando o volume de veículos que chegam aos portos em um curto período excede a capacidade de recebimento dos terminais e dos pontos de controle. Fatores como chuvas, condições precárias de trafegabilidade nas estradas, acidentes e fiscalizações podem interromper o fluxo, sobrecarregando o acesso aos pátios portuários que operam no limite.

Esses congestionamentos geram custos que vão além do frete rodoviário, chegando a impactar o transporte marítimo. Segundo Jesualdo Silva, diretor-presidente da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), o demurrage, taxa cobrada pelo atraso na devolução de contêineres ou navios, pode custar cerca de US$ 40 mil por dia, um valor que é repassado à carga.

“A carga é o grande prejudicado. Quem paga os caminhões, quem paga o frete, quem paga a operação portuária, quem paga a dragagem, quem paga tudo é a carga. O preço todo vai apertando a margem”, explicou Silva.

Desafios crônicos e a necessidade de infraestrutura integrada

Para a Confederação Nacional do Transporte (CNT), as filas não são um evento isolado, mas um desafio habitual que exige planejamento de longo prazo e investimentos consistentes em infraestrutura e gestão. Embora o investimento federal tenha aumentado nos últimos dois anos, a entidade avalia que ainda é insuficiente para reverter a deterioração de trechos rodoviários críticos.

O presidente da CNT, Vander Costa, ressalta a necessidade de uma integração efetiva dos modais de transporte. A implantação de pátios de triagem, sistemas de agendamento de cargas e condomínios logísticos próximos aos terminais poderia reduzir filas e congestionamentos nos períodos de pico.

“A solução passa pela integração efetiva dos modais de transporte. Rodovias, ferrovias e hidrovias devem atuar de forma complementar, ampliando a capacidade de escoamento da produção. É urgente a elaboração de um plano para hidrovias, com foco em programas de dragagem e manutenção das vias navegáveis, além da estruturação de novos mecanismos de financiamento e concessões, que envolvam hidrovias estratégicas”, defende Costa.

Investimentos estratégicos e a urgência de ações

Ronei Glanzmann, CEO do MoveInfra, alerta que o Brasil paga um preço alto pelos seus gargalos logísticos e pagará ainda mais caro se adiar projetos estratégicos. “O Brasil é um país muito rodoviarista, mas não se pode esquecer das obras férreas e de projetos em hidrovias. São obras caras, em especial as ferrovias, mas necessárias e, cedo ou tarde, precisam ser feitas. Se levar dez anos para ficar pronta, tem que começar logo.”, afirma Glanzmann.

Ele aponta que o acesso aos terminais de Miritituba ilustra o desalinhamento entre a expansão da produção e a infraestrutura de transporte. “Nossas grandes riquezas estão no interior do Brasil. Não adianta pensar só lá no porto, lá na ponta, se a gente não tiver o caminho”, conclui.

Condições precárias das rodovias agravam o problema

A Pesquisa CNT de Rodovias 2025 reforça esse diagnóstico, indicando que, na região Norte, 81,3% dos 13,9 mil km avaliados foram classificados como regulares, ruins ou péssimos. Essas condições de pavimento, sinalização e geometria das vias afetam diretamente o desempenho dos corredores que conectam a produção aos portos do Arco Norte, elevando custos e o risco de acidentes.

Lucas Beber, presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja-MT), reforça que o escoamento é um dos principais entraves à competitividade do produtor, mas poucas soluções concretas têm sido apresentadas. Ele critica a falta de propostas detalhadas dos candidatos à presidência para enfrentar esses gargalos, afirmando que as discussões se concentram com grandes financiadores de campanha, e não com quem realmente possui as demandas.

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