Fed sob lupa: especialista descarta “concentração de poder” e direciona atenção para sinais de desaceleração no mercado de trabalho dos EUA
A possibilidade de Kevin Hassett assumir a presidência do Federal Reserve (Fed) e Scott Bane acumular funções no Tesouro e no Conselho Econômico Nacional gerou burburinho nos mercados globais. A preocupação central: um risco de concentração excessiva de poder na estratégia econômica dos Estados Unidos. No entanto, para Fabio Fares, especialista em análise macro, essa narrativa é exagerada.
Em entrevista à BM&C News, Fares desmistifica o alarde em torno da sucessão no Fed, classificando-o como parte do jogo de narrativas, mas sem representar uma ameaça real à independência do comitê ou à condução da política monetária americana. Ele enfatiza que a percepção de controle excessivo por uma única figura não se sustenta na estrutura decisória do banco central.
Conforme informação divulgada pelo BM&C NEWS, Fares esclarece que a influência de um presidente do Fed é limitada, pois ele possui apenas um voto entre os 12 membros votantes do FOMC. Para Fares, a preocupação com a influência de nomes como Kevin Hassett, apelidado de “Trump boy” por parte do mercado, é um reflexo da “era das narrativas e do clickbait”, comparando a situação a receios infundados que cercaram a nomeação de Gabriel Galípolo no Banco Central do Brasil.
O Fed como democracia: um voto não define a política monetária
Fares reitera que o Federal Reserve opera como uma democracia interna, onde o presidente do órgão possui apenas um voto. A necessidade de obter a concordância de pelo menos outros seis membros para formar maioria evidencia que a tomada de decisão é colegiada. Essa estrutura impede que uma única pessoa domine as deliberações, mesmo que haja indicações políticas.
Ele compara o cenário atual a situações anteriores, como a nomeação de Galípolo no Brasil, que gerou apreensões, mas que, segundo Fares, resultou em uma postura profissional e surpreendente. A mensagem é clara: a política monetária americana não é ditada por um único indivíduo, mas sim por um consenso formado dentro do FOMC.
Mercado de trabalho americano: o verdadeiro termômetro econômico
Enquanto a sucessão no Fed é vista como uma “narrativa exagerada”, o que realmente chama a atenção de Fares são os sinais de desgaste no mercado de trabalho dos Estados Unidos. O especialista destaca o relatório ADP, que apontou o fechamento de vagas trimestrais pela primeira vez desde 2020, com um impacto particularmente negativo nas pequenas empresas.
Foram cortadas 120 mil vagas em pequenos negócios, que são considerados o motor da economia americana. Embora parte dessas demissões possa ser atribuída à migração para modelos de trabalho mais flexíveis, como contratos rotativos e parciais, o recado do mercado é inequívoco: a desaceleração do mercado de trabalho é um problema mais grave nos EUA.
Cortes de juros no horizonte: fundamentos superam narrativas políticas
Diante desse cenário de desaceleração, Fares defende que o mercado deve focar nos fundamentos econômicos, em vez de se prender à narrativa de que “não dá para cortar juros”. Ele projeta que o Fed realizará um corte de 25 pontos na próxima reunião, com o presidente Powell adotando uma postura mais flexível e com possibilidade de mais cortes em 2026.
Atingir o juro neutro, segundo Fares, está em um horizonte temporal que ele brinca ser “tempo de Copa do Mundo”. A estabilidade proporcionada pelo Fed, mesmo diante de um shutdown administrativo, não alterou a percepção de que a instituição está no caminho certo para a política monetária.
Menos narrativa, mais fundamento: o que realmente importa para o futuro econômico
O debate sobre a influência política no Fed, embora continue a gerar manchetes, para Fabio Fares, é apenas isso: uma narrativa. O que realmente direcionará o rumo dos juros em 2026 são os dados concretos do mercado de trabalho e a evolução da inflação, com o índice PCE (Personal Consumption Expenditures) servindo como um indicador chave.
Com dados de emprego mais fracos, a desaceleração das pequenas empresas e consumidores sob pressão do endividamento, o cenário aponta para um ciclo de cortes de juros. A concentração de poder no Fed, portanto, é menos relevante do que a capacidade da economia americana de se ajustar a um novo patamar de crescimento e inflação.




