ESG se torna crucial para a sobrevivência de PMEs mineiras, indo além de relatórios e focando na continuidade dos negócios e acesso a mercados globais.
A pergunta que todo empresário mineiro de pequenas e médias empresas (PMEs) precisa responder nos próximos 24 meses não é para o governo ou um auditor, mas sim para o cliente, que representa uma parcela significativa do faturamento. A questão central é sobre a medição de emissões de carbono, políticas de diversidade e o conhecimento do impacto socioambiental das operações.
Se a resposta for negativa ou indicar desconhecimento, o problema transcende a conformidade, tornando-se uma questão de continuidade. Conforme destaca Rosane Santos, executiva de Sustentabilidade e ESG, em artigo para o Diário do Comércio, o ESG deixou de ser uma preocupação exclusiva de grandes corporações e agora bate à porta das PMEs, impulsionado pelo interesse econômico e não apenas pela consciência ambiental.
O chamado Escopo 3, que abrange as emissões indiretas ao longo da cadeia de valor, tornou-se um campo de batalha para a descarbonização corporativa. Grandes empresas estão sendo cobradas por investidores e mercados internacionais sobre a pegada de carbono de seus fornecedores, transformando o que antes era uma conversa de relatório anual em cláusulas contratuais. Essa pressão é especialmente concreta e imediata em Minas Gerais, dada a força da mineração, os investimentos em energia renovável e o avanço do Vale do Lítio, atraindo capital internacional com padrões globais de fornecimento que incluem ESG como critério de seleção.
O Escopo 3 e a Nova Realidade Contratual para PMEs
A grande virada está no Escopo 3, as emissões indiretas que ocorrem na cadeia produtiva. Grandes empresas, ao declararem compromissos com a neutralidade de carbono, incluem as emissões de seus fornecedores. Isso significa que a sua operação, mesmo sendo uma PME, pode ser o ponto de atenção para seus clientes maiores. A demanda por dados ESG não vem mais apenas de leis específicas para grandes companhias, como a CVM 193, que se aplica a companhias abertas a partir de 2026, mas sim das exigências contratuais.
Empresas que não estiverem preparadas para fornecer os dados ESG solicitados por seus clientes maiores correm o risco real de serem substituídas. Essa substituição não se dá por má qualidade do produto ou serviço, mas sim porque a falta de preparo em ESG se tornou um risco de reputação para o parceiro comercial. O ESG, portanto, não exclui PMEs por intenção, mas sim por omissão e falta de preparação.
Minas Gerais: Oportunidades e Riscos na Transição para a Economia de Baixo Carbono
Minas Gerais se encontra em uma posição estratégica única. O estado é central na mineração de minerais essenciais para a transição energética global e um dos maiores polos de geração de energia renovável no Brasil. Esse contexto cria uma janela de oportunidade para as PMEs mineiras que se prepararem para o ESG. Não se trata apenas de adequação, mas de se posicionar como parte integrante de cadeias produtivas globais demandadas pelo mercado.
O Vale do Lítio, por exemplo, já atraiu bilhões em investimentos e gerou milhares de empregos. Empresas internacionais chegam ao estado com padrões globais de fornecimento que priorizam ESG. Para as PMEs locais que desejam continuar participando dessa economia, a questão é pragmática: o que é necessário para se manter competitivo e acessível a esses novos mercados?
Por Onde Começar: Ações Práticas para PMEs
A resposta para iniciar a jornada ESG nas PMEs é direta e urgente, sem a necessidade de implementações complexas ou relatórios extensos. Rosane Santos sugere três movimentos fundamentais que qualquer PME pode começar imediatamente:
Primeiro, medir o que gera. Isso inclui emissões de carbono da operação, consumo de energia e geração de resíduos. Sem dados concretos, a criação de uma estratégia ESG eficaz se torna impossível, comprometendo a capacidade de diálogo com clientes mais exigentes.
Segundo, governar o que faz. Implementar um código de conduta, políticas de diversidade e inclusão, e processos mínimos de compliance e anticorrupção são passos essenciais. A governança transforma intenções em práticas comprovadas e fortalece a credibilidade da empresa.
Terceiro, comunicar com honestidade. Evitar o greenwashing, que é declarar mais do que se faz, é crucial. Transparência e consistência na comunicação são mais valiosas do que narrativas vazias. A sustentabilidade não exige perfeição, mas sim honestidade sobre o ponto de partida e seriedade sobre os objetivos futuros.
Empresas em Minas Gerais que já entenderam essa nova dinâmica estão se certificando, medindo emissões e revendo processos. Elas percebem o ESG não apenas como uma questão ambiental, mas como uma vantagem competitiva real. O mercado recompensa quem chega preparado e penaliza quem se mantém desavisado. Minas Gerais possui os ativos, o território e o capital humano para liderar a economia de baixo carbono, e as PMEs são peças essenciais nessa construção, elo por elo.





