Um ano após o anúncio da compra do Banco Master pelo BRB, o escândalo financeiro que envolve a operação segue sem respostas definitivas, com um rombo estimado em mais de R$ 60 bilhões.
A tentativa de aquisição de 58% do Banco Master pelo BRB, banco estatal de Brasília, completa um ano neste sábado (28), mas o caso está longe de ser solucionado. O que deveria ser um marco para o setor bancário se transformou em um dos maiores escândalos financeiros do Brasil, com investigações ainda em curso e um futuro incerto para as instituições envolvidas.
O anúncio, feito em março de 2025, gerou surpresa no mercado, especialmente pela forma como se desenrolou e pelas subsequentes dificuldades enfrentadas. O Banco Central vetou a operação em setembro de 2025, mas as ramificações do caso continuam a surgir, expondo fragilidades e práticas questionáveis.
Conforme apurado pela Folha de S. Paulo, a análise de documentos públicos e sigilosos, além de conversas com investigadores e pessoas ligadas ao caso, aponta para um cenário complexo, com um potencial rombo que pode ultrapassar a marca de R$ 60 bilhões. A saga do Banco Master e sua relação com o BRB é marcada por um crescimento acelerado, problemas de gestão e a busca desesperada por liquidez.
O Ascensão e Queda do Banco Master: De Gigante a Alvo de Investigação
O Banco Master, anteriormente conhecido como Banco Máxima, experimentou um crescimento exponencial a partir do segundo semestre de 2019, após a transferência de seu controle acionário para Daniel Vorcaro. Com aportes de capital e captações agressivas de Certificados de Depósito Bancário (CDBs), intermediadas por plataformas de investimento, os ativos totais do conglomerado saltaram de R$ 3,7 bilhões para R$ 82,7 bilhões até 2024.
Parte significativa desse crescimento foi impulsionada pela aquisição de outras instituições financeiras, como Vipal, Banif Brasil, Voiter, Letsbank e a Will Financeira. No entanto, por trás da expansão, começavam a surgir desconfianças no mercado quanto à natureza dos negócios do Master.
O Banco Central (BC) intensificou a fiscalização, examinando os investimentos realizados com os recursos captados. Os maiores problemas foram identificados em participações societárias em empresas, empréstimos corporativos, precatórios e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs). Entre 2022 e 2024, o BC emitiu 31 ofícios com determinações de ajustes, provisões e melhorias na gestão do Master.
Precatórios e Empréstimos Duvidosos: O Coração do Escândalo Master
Um dos pontos mais críticos que emergiram nas investigações foram os empréstimos concedidos pelo Master a pessoas jurídicas. Em 2023, Paulo Sérgio Neves de Souza, então diretor do BC, foi encarregado de verificar as carteiras de crédito de empresas e fundos ligados ao banco. Seu relato à diretoria indicou que as operações pareciam sustentáveis, mas ele é hoje investigado sob suspeita de ter manipulado informações para contornar alertas internos.
Outra grande preocupação girava em torno dos negócios do Master com precatórios. O escritório Galdino & Coelho foi contratado para emitir um parecer sobre a possibilidade de efetivação desses direitos creditórios contra a União, mas não analisou se o preço desses ativos estava justo no balanço do banco. A descoberta posterior revelou que o Master possuía R$ 21 bilhões em precatórios e pré-precatórios, R$ 13 bilhões a mais do que os R$ 8 bilhões declarados em seu balanço, escondidos em uma estrutura opaca de fundos de investimento.
A Tentativa de Salvação e a Intervenção do BRB
A partir do segundo semestre de 2024, Daniel Vorcaro enfrentou dificuldades crescentes para rolar seus CDBs, em parte devido à crise de credibilidade que atingiu clientes de varejo. Plataformas de investimento começaram a recomprar CDBs com desconto, exacerbando o risco para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e aumentando a pressão de grandes bancos privados sobre o BC.
Em meio a esse cenário, Vorcaro articulou no Congresso a aprovação de uma emenda para quadruplicar o seguro do FGC para R$ 1 milhão, proposta apresentada pelo senador Ciro Nogueira. A medida, contudo, foi barrada após intervenção do presidente do BC, Roberto Campos Neto, que relatou ter ligado para Ciro para impedir o avanço da emenda. Uma exposição de motivos conjunta do BC e do FGC foi fundamental para deter a proposta, que teria gerado um desfalque ainda maior nas reservas do FGC.
Diante da deterioração da liquidez, o BC exigiu um plano de ajuste, que incluía a captação de R$ 15 bilhões junto a investidores institucionais. Vorcaro, no entanto, só conseguiu captar R$ 2 bilhões. Em novembro de 2024, o BC deu um ultimato de seis meses para a resolução dos problemas. Foi nesse contexto que Vorcaro estruturou a saída através da parceria com o BRB, que já vinha comprando carteiras de crédito do Master desde julho de 2024, carteiras essas que apresentavam comportamento atípico de inadimplência e sinais de inconsistência.
Um Legado de Incertezas e o Futuro do BRB
O anúncio da aquisição do Master pelo BRB, em março de 2025, pegou o mercado de surpresa. A alegação era de que o banco de Vorcaro poderia ampliar os horizontes do BRB. Contudo, um ano depois, o resultado sugere que o BRB estatal poderá ter que encolher para sobreviver. A relação entre o governador de Brasília, Ibaneis Rocha, e Daniel Vorcaro, que teria viabilizado a operação, é alvo de investigação.
Apesar do tempo decorrido, o caso Master continua a ser um capítulo em aberto no noticiário financeiro brasileiro, levantando sérias questões sobre a supervisão regulatória, a integridade das operações bancárias e a responsabilidade dos envolvidos em um escândalo que pode redefinir o panorama do setor.





