Mercado Livre de Energia: Alta de até 121% em Dois Anos Preocupa Setores e Inflação
O preço da energia elétrica no mercado livre brasileiro registrou um aumento expressivo nos últimos dois anos, com contratos de longo prazo subindo 59% e contratos trimestrais disparando em até 121%. Essa escalada, segundo especialistas, é resultado de uma combinação de fatores climáticos, estruturais e conjunturais, acendendo um alerta para possíveis impactos inflacionários e para a competitividade da indústria nacional.
Dados da Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel) revelam que o preço da energia convencional em contratos de longo prazo, com vigência de quatro anos, saltou de R$ 147 por megawatt-hora (MWh) em 2024 para R$ 233 por MWh em 2026. Em comparação, a inflação oficial, medida pelo IPCA, subiu apenas 5% no mesmo período.
A situação é ainda mais crítica nos contratos de curto prazo. Os preços para os três meses subsequentes mais que dobraram, passando de R$ 143 por MWh para R$ 317 por MWh, uma elevação de 121%. Essa volatilidade contrasta com o mercado cativo, cujas tarifas são reguladas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), e levanta preocupações sobre a sustentabilidade do setor produtivo.
Avanço do PLD e Impacto na Indústria
A alta dos preços no mercado livre acompanha o avanço do Preço de Liquidação de Diferenças (PLD), que baliza as operações de curto prazo. O PLD médio apresentou uma elevação de 84% entre 2024 e 2026, passando de R$ 129 para R$ 236 por MWh. Rodrigo Ferreira, presidente da Abraceel, destaca que o mercado livre representa 42% da demanda de energia no país e alerta que, sem atenção aos preços, o setor produtivo brasileiro pode se tornar inviável, com reflexos diretos na inflação.
O setor industrial já sente os efeitos dessa elevação. Sérgio Pataca, consultor em energia da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), afirma que muitas empresas estão sendo forçadas a renovar contratos em patamares de preço mais elevados. “Isso pressiona custos e pode refletir no preço final dos produtos”, observa.
Fatores Climáticos e Mudança no Modelo de Precificação
A disparada recente dos preços tem suas raízes em um cenário de preços historicamente baixos em 2024, impulsionado por reservatórios cheios e pela abertura do mercado livre a novos consumidores. Essa conjuntura tornou o mercado livre muito atrativo, com economias de até 30% em relação ao mercado cativo.
No entanto, a partir do final de 2024 e início de 2025, o país enfrentou um período de seca, com chuvas abaixo da média, especialmente nas regiões Sudeste e Sul. Essa escassez hídrica impactou diretamente os níveis dos reservatórios e, consequentemente, o preço da energia.
Paralelamente, o governo adotou um modelo de precificação mais conservador, visando mitigar riscos de escassez e preservar os níveis dos reservatórios. Essa nova metodologia, segundo Walter Fróes, diretor da CMU Energia, aumentou a aversão ao risco e tornou o mercado mais volátil. “A qualquer consideração, os preços já sobem muito”, avalia.
Menor Diferença entre Mercados e Desestímulo à Migração
A recuperação dos reservatórios em 2026, embora presente, ainda não é considerada suficiente em algumas regiões, mantendo os preços elevados. A diferença de preço entre o mercado livre e o cativo, que antes ultrapassava 30%, hoje varia entre 2% a 5%. Essa redução na vantagem econômica desestimula a migração de consumidores para o mercado livre, que é mais complexo em termos contratuais e de agentes envolvidos.
A previsão para 2026 é de que as migrações para o mercado livre se aproximem de zero, após um recorde no ano anterior. A Abraceel expressa preocupação com esse cenário, pois o desarranjo setorial e as inconsistências nos modelos de precificação têm afastado novos investimentos em geração de energia.
Escassez de Oferta e Riscos Futuros
Um novo elemento que contribui para a elevação dos preços é a escassez de oferta no mercado livre. Cerca de um terço dos contratos de consumidores têm prazos de seis meses a dois anos, e com os preços atuais, associados à falta de energia nova, esses consumidores podem ficar expostos a custos “impagáveis”.
A falta de energia é atribuída a fatores como o GSF (Generation Scaling Factor), que mede o risco hidrológico, e o curtailment, que é a redução forçada da produção de usinas eólicas e solares para equilibrar a rede. Diante deste quadro, a Abraceel recomenda um olhar atento da Aneel para evitar artificialidades na formação de preços, como poder de mercado e sobre custos operacionais do sistema.





