O dólar voltou a subir forte no mercado local nesta quinta-feira (1º), fechando acima da linha de R$ 5,20, impulsionado por um cenário global de aversão ao risco e escalada dos preços do petróleo. A moeda brasileira, embora tenha sofrido perdas, mostrou resiliência comparada a outras divisas emergentes em meio a um dia de tensões geopolíticas e expectativas inflacionárias.
A onda de fortalecimento do dólar americano, que tem afetado mercados globais, encontrou terreno fértil em um dia marcado pela nova disparada do petróleo. As preocupações com a inflação global aumentaram, levando investidores a buscar a segurança da moeda dos Estados Unidos.
Analistas apontam que, apesar do cenário externo desfavorável, o real tem se beneficiado de uma perspectiva positiva relacionada às eleições presidenciais brasileiras. A expectativa de um bom desempenho de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, no domingo (4), é vista como um fator que pode reduzir os prêmios de risco associados às contas públicas do Brasil.
Conforme informação divulgada pelo Estadão Conteúdo, o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, ressalta que a questão eleitoral tem seu peso, mas também atribui parte do desempenho do real ao avanço nos preços das commodities agrícolas, com potenciais efeitos do El Niño, e à valorização do próprio petróleo.
Mercado em Alerta com Tensões Geopolíticas e Dados Econômicos
Os investidores estiveram atentos a eventos cruciais que ocorreriam na noite de quinta-feira, como a divulgação de nova pesquisa Datafolha e o debate presidencial na TV Globo. A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no debate, em favor de uma entrevista ao Flow Podcast, também gerou movimentação.
O dólar à vista atingiu uma máxima de R$ 5,2374 no início da tarde e encerrou o pregão em alta de 0,88%, cotado a R$ 5,2204. Esse desempenho contrasta com pares do real, como o peso mexicano, chileno e o rand sul-africano, que recuaram entre 1,20% e 1,70%.
Gustavo Trotta, especialista e sócio da Valor Investimentos, destacou que o movimento do câmbio foi majoritariamente externo, com o dólar se fortalecendo contra praticamente todas as moedas. A superação dos US$ 100 por barril de petróleo foi um fator decisivo, em meio a crescentes preocupações com a guerra no Oriente Médio.
Petróleo em Alta e Dólar como Porto Seguro Global
As cotações do petróleo aceleraram sua alta na tarde de quinta-feira, impulsionadas por relatos de que o presidente dos EUA, Donald Trump, poderia retomar bombardeios ao Irã em novembro. A pressão americana sobre a União Europeia para liberar estoques de diesel e a possibilidade de restrições às exportações do derivado pelos EUA assustaram os investidores. O barril do tipo Brent para dezembro fechou em alta de 4,37%, a US$ 102,31.
André Galhardo, da Análise Econômica, reforça o movimento global de valorização do dólar, que se consolida como um refúgio para investidores em tempos de incerteza. A possibilidade de novos ataques ao Irã eleva os preços do petróleo e intensifica as pressões inflacionárias, segundo ele.
Embora a divulgação do índice de preços de gastos com consumo (PCE) nos EUA, abaixo do esperado, tenha reduzido as apostas de um aumento de juros pelo Federal Reserve em outubro, as preocupações inflacionárias decorrentes da guerra permanecem elevadas. Isso se reflete na taxa de juros de 10 anos do Treasury (T-note), que atingiu o maior nível em 24 anos.
Desempenho do Real e o Papel das Eleições Brasileiras
O índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, avançava 0,58% no fim da tarde, operando nos maiores níveis desde março de 2025. Chris Turner, chefe de estratégia global de mercados e câmbio do banco ING, observa que a economia americana apresenta um desempenho razoável, e o mercado precifica a necessidade de uma política monetária restritiva por parte do Fed.
No cenário doméstico, a perspectiva eleitoral continua sendo um fator de suporte para o real. A expectativa de que um eventual governo de oposição possa promover ajustes nas contas públicas é um alívio para os investidores, que temem o aumento do endividamento estatal brasileiro.
Apesar da volatilidade recente, o real figura entre as moedas emergentes com melhor desempenho no ano, atrás apenas do won sul-coreano e do peso colombiano. Essa performance demonstra a resiliência da moeda brasileira diante de um cenário global desafiador.




