De Críticas à Amazônia a Apoio a Trump: A Surpreendente Virada da Família Bolsonaro em Relação aos EUA

De Críticas à Amazônia a Apoio a Trump: A Surpreendente Virada da Família Bolsonaro em Relação aos EUA

Em meados dos anos 1990, a família Bolsonaro demonstrava forte ceticismo em relação aos Estados Unidos, com discursos que associavam o país a planos de exploração da Amazônia e interferência na soberania brasileira. Essa postura, enraizada em um nacionalismo militar, contrastava com a visão atual, marcada por um estreito alinhamento com o governo americano.

A mudança de discurso é notável e se intensificou na última década, culminando em uma relação de proximidade sem precedentes. A aproximação com o movimento conservador americano e a figura de Donald Trump foram marcos dessa transição.

Essa evolução na política externa da família Bolsonaro reflete não apenas uma adaptação a novos cenários políticos, mas também uma estratégia para consolidar sua base eleitoral e ideológica. A origem dessa transformação e seus desdobramentos são complexos.

Conforme informação divulgada pela Folhapress, a trajetória da família Bolsonaro em relação aos Estados Unidos passou por uma notável transformação ao longo de três décadas. Nos anos 1990, o discurso era de desconfiança, com críticas públicas à cobiça internacional sobre a Amazônia e acusações de interferência na soberania brasileira.

Nacionalismo e Desconfiança nos Anos 90

Na década de 1990, o então deputado federal Jair Bolsonaro expressava publicamente suas preocupações com o que via como um “grande interesse norte-americano pela nossa Amazônia” devido às suas riquezas minerais. Ele defendia que “soberania não se negocia”, especialmente em relação à demarcação de terras indígenas, como a Yanomami, em 1995.

Seus filhos seguiram essa linha. Em 2003, o senador Flávio Bolsonaro associou o interesse americano pelos povos indígenas às riquezas naturais, alertando para um futuro de “dependência total” caso o Brasil não reagisse. Carlos Bolsonaro, na mesma época, criticava elogios do FMI ao Brasil, afirmando que o governo estava “de cócoras para os EUA” e pregava “postura extremamente enérgica de patriotismo”.

João Roberto Martins Filho, professor da Ufscar, explica que essa suspeita de intervenção estrangeira surgiu com o fim da Guerra Fria, servindo como uma “causa unificadora no meio militar, que era a defesa da Amazônia”. Ele aponta que Bolsonaro utilizava esse discurso para obter apoio de sua base eleitoral.

A Virada de Chave a Partir de 2013

A partir de meados da década de 2010, o discurso dos Bolsonaros começou a mudar. Um ponto de inflexão ocorreu em julho de 2013, quando a Câmara discutiu uma moção de repúdio aos EUA por espionagem. Na ocasião, Jair Bolsonaro afirmou que os EUA eram um parceiro comercial importante e que o Brasil não deveria buscar “animosidades”, chegando a prestar homenagens aos americanos “pelo que ocorreu em 1964”.

Jorge Chaloub, cientista político da UFRJ, atribui essa mudança à ascensão de Bolsonaro como liderança da direita. Ele entrou em contato com um “ecossistema mais amplo de direita”, que incluía o Instituto Millenium e Olavo de Carvalho, onde havia uma defesa explícita de alinhamento aos EUA como contraponto à esquerda e para defender a “cultura ocidental cristã”.

Alinhamento Intensificado com Trump

Com a sobreposição temporal dos governos Trump e Bolsonaro, o alinhamento se acentuou. Jair Bolsonaro declarou ser “apaixonado por Trump, pelos americanos e pelos Estados Unidos”. Essa intensificação, segundo Feliciano Guimarães, pesquisador do Cebri, se deu pela mimetização do movimento “Make America Great Again” (Maga) e pela entrada do Brasil em uma “internacional reacionária iliberal”.

A estratégia americana de enfrentamento à China no continente também aprofundou essa aproximação. O Brasil, com sua relação densa com os chineses, tornou-se um alvo. A estratégia de segurança nacional de Trump colocava as Américas como centro de atuação, com pano de fundo a disputa com a China.

Flávio Bolsonaro e os Desafios nos EUA

Enquanto enfrenta escândalos no Brasil, Flávio Bolsonaro busca vitórias nos EUA, como a decisão de Trump de classificar facções criminosas brasileiras como terroristas. Ele também tenta proteger sua imagem dos efeitos do “tarifaço”, que impactou produtos brasileiros e foi apoiado por seu irmão Eduardo.

Guimarães considera a proximidade com o governo americano um “problema estratégico grave” para Flávio, devido à agressividade das tarifas, que gera o fenômeno “rally around the flag”, onde a população se une em torno do governo em crises. Ele avalia que é difícil reverter a percepção de um governo americano agressivo aos interesses brasileiros.

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