Consumo deixa de ser o motor principal do PIB e projeta o menor crescimento desde a pandemia
O protagonismo do consumo das famílias como principal impulsionador da economia brasileira parece estar chegando ao fim. Especialistas preveem que o ritmo de crescimento deste setor, responsável por 63% do Produto Interno Bruto (PIB), será o menor registrado desde o período pandêmico, tanto em 2024 quanto em 2025. Essa desaceleração levanta questões sobre os futuros pilares do crescimento econômico do país.
Com o principal pilar da demanda enfraquecido, as projeções indicam que o investimento e as exportações terão que assumir um papel de maior destaque para sustentar a atividade econômica. A perda de fôlego do consumo se deve a uma combinação de fatores, incluindo o elevado endividamento das famílias, o comprometimento da renda e um mercado de trabalho e crédito menos aquecidos em comparação com anos anteriores.
A redução do ímpeto fiscal, necessária para controlar a relação dívida/PIB, que atingiu 82,9% em agosto, também contribui para a desaceleração. Esse cenário contrasta com os anos anteriores, quando a queda acentuada do desemprego, o aumento de benefícios sociais e o forte crescimento do crédito ao consumidor impulsionaram o consumo. Conforme informação divulgada pela Folhapress, essa mudança de cenário pode impactar a percepção de popularidade do governo, mesmo com indicadores positivos como o baixo desemprego.
Endividamento e Renda Comprometida Freiam Gastos das Famílias
O alto nível de endividamento e o comprometimento da renda familiar são apontados como os principais vilões da desaceleração do consumo. Em julho, esses indicadores alcançaram patamares recordes, chegando a 49,9% e 28,7%, respectivamente, segundo dados do Banco Central. Esse quadro dificulta a capacidade de gasto das famílias, mesmo com um mercado de trabalho que, embora menos dinâmico, ainda apresenta uma taxa de desemprego considerada baixa, estimada em 6,2% para o próximo ano.
Natália Cotarelli, economista do Itaú Unibanco, observa que o consumo está aquém do potencial devido à renda mitigada pelo pagamento de juros e principal de dívidas. Ela estima um crescimento de 1,1% para o consumo neste ano e no próximo, mas alerta que o crédito a pessoas físicas deve continuar desacelerando, impactando ainda mais os gastos.
Fim de um Ciclo de Estímulos e a Busca por Novos Impulsores
Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV Ibre, descreve o momento como o fim de uma “ilusão” ancorada em estímulos fiscais que sobrecarregaram o orçamento público e privado. Para ela, o consumo impulsionado artificialmente pelo governo não é sustentável a longo prazo, e a conta dessa política está chegando, com o governo endividado e as famílias em situação similar.
A pesquisadora compara a situação a um cabo de guerra entre política fiscal e monetária, onde juros reais elevados, mantidos para conter a inflação, agem como um “antibiótico prolongado” com efeitos colaterais severos. A expectativa é que o consumo desacelere ainda mais, com projeções de alta de 0,9% em 2027, e cenários mais pessimistas indicando estagnação ou leve recuo.
Investimento e Exportações: Os Novos Protagonistas da Economia?
Diante do esgotamento do modelo de consumo como principal motor do PIB, economistas vislumbram um futuro onde o investimento e as exportações ganhem mais relevância. Embora não se espere que compensem totalmente a desaceleração do consumo, esses setores podem oferecer um crescimento mais equilibrado e sustentável.
Felipe Camargo, economista da Oxford Economics, acredita que a queda do consumo pode levar à redução dos juros, beneficiando as empresas e, consequentemente, o investimento. Ele aponta para oportunidades em infraestrutura portuária e data centers. Para Silvia Matos, a virada é estrutural, exigindo um PIB liderado por investimento e ganhos de produtividade, e não mais pelo consumo.
Um Novo Paradigma para o Crescimento Brasileiro
A mudança de paradigma é vista como necessária para aumentar o potencial da economia brasileira. A transição para um modelo liderado por investimento, contudo, dependerá da queda sustentada dos juros. A atual dinâmica econômica sugere que o país precisa encontrar novos caminhos para garantir um crescimento robusto e duradouro, saindo da dependência excessiva do consumo das famílias. A projeção para o PIB em 2025, segundo o Boletim Focus do BC, já aponta para uma expansão de apenas 1,41%, indicando a necessidade de adaptação a esta nova realidade econômica, conforme divulgado pela Folhapress.




