Carnaval, cerveja e diversão: por que ‘Todos por Todas’ precisa ir além do pacto
O Carnaval, tempo de alegria e celebração para muitos, é também um período de alerta e autoproteção para milhões de mulheres. O que deveria ser uma expressão coletiva de liberdade frequentemente se transforma em um palco onde o assédio é naturalizado e tratado como parte da “brincadeira”.
A cultura, e não a festa em si, é a raiz do problema. Historicamente, a sociedade tem autorizado a violência contra o corpo feminino, e o Carnaval, com sua atmosfera de liberação, acaba por expor e, por vezes, intensificar essa realidade.
Nesse contexto, o recente Pacto Brasil, com o lema “Todos por Todas”, busca o enfrentamento ao feminicídio. A iniciativa, firmada pelos três poderes, é um marco político importante ao convocar os homens para serem aliados na transformação dessa realidade social.
Feminicídio: um sintoma de uma cultura de desvalorização
O feminicídio não é um evento isolado, mas sim o ponto culminante de uma cadeia contínua de desvalorização, controle e desumanização das mulheres. Conforme aponta Letícia Lins, doutora e mestra em Comunicação e fundadora da Letícia Lins Consultoria de Diversidade e Inclusão, “o feminicídio não começa no crime — começa na cultura”.
Leis, pactos e campanhas são essenciais, mas insuficientes. O Brasil foi estruturado simbolicamente em torno de um tripé poderoso: Carnaval, mulher e futebol. Essa narrativa cultural consolidou a mulher como objeto e espetáculo, e no Carnaval, a objetificação ganha uma “licença festiva”, perpetuando o desrespeito e a banalização da violência.
A urgência de ir além da punição e atacar as causas
Nenhuma legislação, isoladamente, será capaz de promover a mudança necessária. A lei pune o ato, mas é a cultura que molda o comportamento. Sem educação emocional, sem a revisão dos pactos masculinos e sem a formação de meninos para o cuidado, o respeito e a corresponsabilidade, continuaremos apenas a lidar com as consequências, e não com as causas.
“Todos por Todas” precisa transcender o status de lema institucional para se tornar uma prática cotidiana. Ser aliado significa não se silenciar diante do assédio, interromper a violência simbólica, educar outros homens, rever privilégios e romper o pacto de conivência masculina. A violência contra a mulher é um problema de toda a sociedade.
Carnaval de 2026: um convite ao respeito e à empatia
A reflexão se estende para o futuro, com um convite para que o Carnaval de 2026 seja celebrado com “respeito e empatia”. A máxima “não é não” deve ser o mantra de todos, e a proteção às mulheres não pode ser um gesto de ocasião, mas sim um projeto permanente no país.
Caso presencie algum episódio de violência, é fundamental ajudar e acolher. A luta contra a violência de gênero é um compromisso contínuo que exige a participação ativa de toda a sociedade para construir um ambiente mais seguro e igualitário para todas as pessoas.




