44,8 milhões de brasileiros ainda não conseguem pagar por uma alimentação saudável, segundo a FAO
O Brasil celebrou sua saída do Mapa da Fome da ONU em 2025, um marco significativo. No entanto, a realidade atual revela que a fome, no sentido estrito da subnutrição, é apenas uma faceta de um problema maior: a insegurança alimentar.
Dados recentes da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) indicam que 44,8 milhões de brasileiros ainda enfrentam dificuldades financeiras para manter uma dieta equilibrada e nutritiva, mesmo com a recuperação dos indicadores nacionais de segurança alimentar.
Essa situação expõe a complexidade do acesso a alimentos saudáveis e a persistência de desafios que vão além da simples quantidade de calorias consumidas. Conforme informações divulgadas pelo relatório O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi), referente a 2025.
A dualidade da segurança alimentar: fome vs. alimentação saudável
A saída do Brasil do Mapa da Fome, confirmada em julho de 2025, ocorreu quando a proporção da população em situação de subnutrição caiu abaixo de 2,5%. Este indicador, utilizado pela ONU, foca na insuficiência habitual de calorias necessárias para uma vida saudável.
Contudo, o Mapa da Fome não abrange todos os aspectos da qualidade alimentar. Uma pessoa pode consumir calorias suficientes, mas ainda assim ter dificuldades em adquirir alimentos variados e nutricionalmente adequados, como frutas, verduras, carnes e ovos.
Essa distinção explica por que, apesar de reduzir a subnutrição, o país ainda lida com milhões de pessoas que não possuem condições financeiras para uma dieta saudável. A insegurança alimentar, nesse contexto, vai além da fome.
Insegurança alimentar moderada ou grave afeta 20,3 milhões de brasileiros
O relatório da FAO também aponta que, entre 2023 e 2025, 20,3 milhões de brasileiros vivenciaram insegurança alimentar moderada ou grave. Embora represente uma melhora em relação a períodos anteriores, com uma redução de aproximadamente 19,4 milhões de pessoas, o número ainda é alarmante.
A incapacidade de pagar por uma dieta saudável está diretamente ligada ao custo dos alimentos e à renda disponível. Já a insegurança alimentar abrange experiências de restrição e incerteza no acesso à alimentação, impactando a qualidade de vida.
Especialistas ressaltam que a manutenção dos avanços depende de políticas públicas contínuas, recuperação do poder de compra dos salários e fortalecimento da agricultura familiar.
Por que 44,8 milhões não conseguem pagar por uma alimentação saudável?
O principal obstáculo é a combinação de baixa renda, custo elevado de alimentos e despesas essenciais que comprometem o orçamento familiar. A FAO considera o preço de uma cesta variada de alimentos e a renda disponível após gastos com moradia, transporte e vestuário.
O cálculo não se limita à quantidade de comida, mas à possibilidade de adquirir produtos de diferentes grupos alimentares em proporções adequadas. Uma cesta saudável, segundo estimativas, custaria entre R$ 240 e R$ 250 por pessoa ao mês.
Para uma família de quatro pessoas, isso significaria um gasto mensal entre R$ 960 e R$ 1.000 apenas com alimentação saudável, comprometendo cerca de 60% do salário mínimo vigente em 2026. Esse valor não inclui outras necessidades básicas.
Desigualdades regionais e sociais agravam o cenário
A insegurança alimentar não atinge todos os brasileiros de forma igual. Famílias chefiadas por mulheres, especialmente mulheres negras, e as regiões Norte e Nordeste são as mais vulneráveis. Fatores como informalidade no trabalho, baixos salários e instabilidade de rendimentos contribuem para essa desigualdade.
Em áreas com menor oferta de empregos formais e renda reduzida, os alimentos podem pesar ainda mais no orçamento. Dificuldades logísticas, como o transporte de perecíveis, elevam os preços, especialmente em comunidades rurais isoladas e periferias urbanas.
A falta de estabelecimentos que comercializam alimentos frescos nessas regiões agrava o problema, limitando as opções mesmo quando há algum recurso financeiro disponível.
Desertos e pântanos alimentares: desafios de acesso e oferta
A dificuldade de acesso a alimentos saudáveis também está ligada à distribuição geográfica dos estabelecimentos comerciais. Aproximadamente 25 milhões de brasileiros vivem em desertos alimentares, áreas com pouca ou nenhuma oferta de produtos frescos.
Nesses locais, o deslocamento para comprar alimentos aumenta o custo final. Já os pântanos alimentares concentram estabelecimentos com predominância de produtos ultraprocessados, afetando cerca de 15 milhões de pessoas.
A predominância de refrigerantes, biscoitos e salgadinhos em detrimento de frutas e verduras interfere diretamente nas escolhas alimentares, especialmente para famílias de baixa renda.
Soluções e caminhos para o futuro
Especialistas apontam o fortalecimento da agricultura familiar como estratégia para ampliar a oferta de alimentos frescos e reduzir custos. Programas como o PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) conectam produtores familiares a populações vulneráveis.
A recuperação da renda, por meio da valorização do salário mínimo e políticas de transferência como o Bolsa Família, é crucial. No entanto, não é a única solução, pois o aumento da renda deve ser acompanhado pela estabilidade dos preços dos alimentos.
O Protocolo Brasil Sem Fome busca integrar serviços de saúde, assistência social e segurança alimentar para alcançar famílias em vulnerabilidade. A busca ativa e a atualização do Cadastro Único são ferramentas importantes para identificar e apoiar quem mais precisa.
Para evitar o retorno ao Mapa da Fome, o Brasil precisa de políticas públicas contínuas que enfrentem a pobreza, o custo dos alimentos e as desigualdades territoriais, garantindo a todos o direito à alimentação saudável e de qualidade.




