A Tabacaria e Cafeteria Boca de Pito se Adapta e Conquista Novos Consumidores
Em Belo Horizonte, um estabelecimento que nasceu em 1977, a Tabacaria e Cafeteria Boca de Pito, demonstra uma impressionante capacidade de adaptação. Equilibrando a tradição do bom cafezinho com produtos de tabaco, o espaço, que hoje funciona no Shopping 5ª Avenida, na região Centro-Sul, caminha para completar meio século de existência, sempre buscando agradar tanto clientes antigos quanto novos consumidores.
O empreendimento oferece uma vasta gama de produtos, incluindo cigarros, charutos, cachimbos e diversos acessórios, além de cafés especiais e outros itens relacionados. A história da Boca de Pito, conforme relatado pelo proprietário Geraldo Magela Meme, começou com uma saudade afetiva: a do café preparado por sua mãe em casa, no interior.
“Minha família tem origem turca e, quando vim para Belo Horizonte, senti muita falta do café da minha mãe. A ideia da Boca de Pito veio daí”, explica Meme. Ele relembra os primórdios da primeira loja, na rua Antônio de Albuquerque, bairro Funcionários. “Fomos a primeira cafeteria da cidade a oferecer café expresso e esterilizar as xícaras a vapor. Também tínhamos ar condicionado e uma porta de vidro que permanecia fechada.”
No entanto, a modernidade inicial trouxe um desafio inesperado. “O resultado é que as pessoas não entravam na loja e eu quase fui à falência. Um dia o ar condicionado estragou e eu tive de abrir a porta, as pessoas começaram a entrar e nunca mais pararam”, conta o proprietário, evidenciando a importância da acessibilidade e da interação com o público.
Da Rua ao Shopping: Uma Evolução Constante
Após a experiência inicial, a Boca de Pito mudou-se para o Shopping 5ª Avenida. Lá, a porta de vidro passou a ficar aberta e o ar condicionado voltou a funcionar, consolidando um novo modelo de negócio. Há três anos, a mudança para um espaço duas vezes maior permitiu ainda mais inovações, como a adoção de uma lona no lugar da porta.
Ao longo de sua trajetória, a empresa enfrentou não apenas as intempéries políticas e econômicas do Brasil, mas também a pandemia, que forçou um ano de fechamento. Mais impactantes foram as drásticas mudanças no padrão de consumo. Se a cafeteria ajudou a popularizar o hábito de tomar café expresso, a tabacaria sentiu o impacto da campanha antitabagista e o surgimento dos cigarros eletrônicos.
“Além da porta de vidro fechada, as pessoas estranhavam o café expresso. No início quem frequentava a Boca de Pito eram os executivos da Fiat e o governador Francelino Pereira”, pontua Meme. “Ao longo do tempo as coisas foram mudando. Enquanto o consumo de cachimbos diminuiu, o de charutos cresceu, especialmente entre as mulheres. Também passamos pela proibição do fumo dentro da loja.”
Adaptando-se às Novas Gerações e ao Mercado de Tabaco
Para atrair as novas gerações, a Boca de Pito investiu em um espaço agradável, com tomadas para carregar dispositivos eletrônicos, e na oferta de cafés especiais. A tabacaria também se adaptou, mantendo uma vasta coleção de cigarros de palha e os insumos para sua produção própria, itens que têm ganhado popularidade entre os jovens.
O Brasil, como segundo maior produtor e maior exportador mundial de tabaco, com cerca de 95% da produção concentrada na região Sul, oferece um cenário favorável. A associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) projeta para a safra 2024/2025 uma produção de aproximadamente 719,891 mil toneladas, com a indústria de exportação visando superar a marca de US$ 3 bilhões em 2025.
“Os jovens redescobriram o cigarro de palha e muitos gostam de eles mesmos enrolarem o cigarro. Temos todos os produtos para isso e uma grande variedade de tabaco”, afirma Meme. Ele destaca a qualidade do tabaco brasileiro, reconhecida internacionalmente. “Hoje o Brasil produz o melhor tabaco e os melhores charutos do mundo, embora a fama ainda seja de Cuba. Temos muita tecnologia aplicada à produção, isso se reflete na sofisticação dos terroirs e na qualidade dos blends.”
Histórias e Legado para o Futuro
O empresário já prepara a segunda geração para assumir os negócios, esperando que a Boca de Pito continue sendo palco de histórias memoráveis. Ele relembra um famoso empresário dos anos 1980 que, ao frequentar a loja, cantava árias e distribuía dinheiro aos funcionários, criando momentos únicos e divertidos.
Ao longo de quase 50 anos, a Boca de Pito demonstrou resiliência, atravessando mudanças de comportamento, crises econômicas e transformações no consumo. Sua força reside na capacidade de criar vínculos, tornando-se um ponto de encontro, um lugar de histórias improváveis e um espaço onde diferentes gerações se reconhecem no aroma do café ou no ritual de acender um charuto.
A tabacaria e cafeteria mantém viva a ideia original que a inspirou nos anos 1970: a saudade de um café feito em casa, servido com cuidado. Esse fio condutor sustenta o passado e aponta para o futuro da Boca de Pito, um negócio que soube se reinventar sem perder sua essência.




