Apostas online geram prejuízo de R$ 38,8 Bilhões ao país, impactando saúde mental e economia, revela estudo.
A rápida expansão das apostas online no Brasil, popularmente conhecidas como bets, tem gerado um rombo financeiro e social alarmante. Um estudo recente aponta que o país perde cerca de R$ 38,8 bilhões anualmente devido aos impactos negativos dessa atividade. Este valor colossal engloba desde o aumento de casos de suicídio e problemas de saúde mental até o crescimento do desemprego e custos elevados com saúde.
O levantamento, intitulado “A saúde dos brasileiros em jogo”, é fruto de uma colaboração entre o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), a Umane e a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental (FPSM). Ele lança luz sobre os perigos de um setor em franca expansão e com fragilidades na regulação.
A pesquisa revela que o Brasil registrou impressionantes 17,7 milhões de apostadores em apenas seis meses. Deste total, estima-se que 12,8 milhões de pessoas estejam em situação de risco, necessitando de atenção urgente. Conforme divulgado pelo portal Seu Crédito Digital, o montante de R$ 38,8 bilhões em perdas poderia, por exemplo, expandir o orçamento do programa Minha Casa, Minha Vida em 26% ou aumentar o Bolsa Família em 23%.
O Custo Humano e Financeiro das Apostas
O estudo detalha como esse prejuízo bilionário se manifesta. A maior fatia das perdas, R$ 17 bilhões, está associada a mortes adicionais por suicídio, evidenciando o lado mais trágico do vício em jogos. Outros R$ 10,4 bilhões são atribuídos à perda de qualidade de vida decorrente de casos de depressão.
Os gastos com saúde pública também são significativos, totalizando R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão e outras condições relacionadas ao transtorno do jogo. Esses números chocam e demandam uma resposta imediata do poder público e da sociedade civil.
Danos Indiretos: Desemprego e Criminalidade
Além dos custos diretos com saúde, as apostas online geram perdas indiretas que afetam a estrutura social e econômica do país. O estudo estima em R$ 2,1 bilhões os gastos com seguro-desemprego, reflexo do afastamento do trabalho e da instabilidade econômica de indivíduos viciados.
Um custo social igualmente elevado, de R$ 4,7 bilhões, está relacionado ao encarceramento por atividades criminais motivadas pelo endividamento. A perda de moradia também figura na conta, com um custo estimado em R$ 1,3 bilhão, demonstrando o desespero financeiro de muitas famílias afetadas.
É crucial notar que 78,8% do total de perdas, equivalentes a R$ 30,6 bilhões, estão diretamente ligadas a custos de saúde, evidenciando o impacto profundo na saúde mental da população brasileira.
Arrecadação Insuficiente Frente aos Custos Bilionários
O volume de dinheiro movimentado pelas bets é colossal. Segundo o Banco Central, os brasileiros destinaram cerca de R$ 240 bilhões às plataformas de apostas em 2024. Um dado alarmante é que beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em apostas apenas em agosto de 2024, utilizando o Pix.
Embora as apostas tenham sido legalizadas em 2018 e regulamentadas em 2023, o pagamento integral de impostos só se intensificou a partir de 2025. Até setembro de 2024, a arrecadação com a atividade girava em torno de R$ 6,8 bilhões, alcançando cerca de R$ 8 bilhões no mês seguinte.
A análise do relatório aponta uma discrepância alarmante: “O contraste entre a arrecadação – ainda que consideremos a projeção anual de R$ 12 bilhões – e o custo anual estimado de R$ 38,8 bilhões revela uma conta que não fecha do ponto de vista do interesse público”.
Atualmente, as bets são tributadas em 12% sobre a receita bruta. Há um debate no Senado sobre o Projeto de Lei 5473/2025, que propõe dobrar essa alíquota para 24%. Os apostadores pagam 15% de Imposto de Renda sobre o prêmio. Contudo, apenas 1% do valor arrecadado é destinado aos cofres do Ministério da Saúde, uma fração ínfima diante dos custos gerados.
Modelo Britânico e Sugestões para o Brasil
Diante deste cenário, o estudo sugere a adoção de medidas inspiradas no modelo britânico de redução de danos. Entre elas, destacam-se a autoexclusão, que permite ao usuário bloquear seu acesso a sites de apostas; a restrição à publicidade, que proíbe anúncios que sugiram o jogo como solução financeira ou que sejam direcionados a menores; e a destinação de 50% da arrecadação para o tratamento de saúde das pessoas afetadas.
Para mitigar os danos no Brasil, o IEPS sugere cinco caminhos cruciais: aumentar a parcela da taxação destinada à saúde, formar profissionais para o acolhimento no SUS, proibir propagandas agressivas, restringir o acesso a grupos de risco e menores, e implementar regras rigorosas para as empresas de apostas.
“Se o Estado entende que a legalização é um caminho sem volta, ele precisa mitigar os danos causados pelas empresas de apostas e assegurar mecanismos sólidos de redução de danos”, conclui Rebeca Freitas, diretora de Relações Institucionais do Ieps.
Mercado de Apostas Resiste ao Aumento de Impostos
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa grande parte do mercado de bets no Brasil, manifesta-se contra o aumento da tributação. A entidade argumenta que a medida pode fortalecer o mercado clandestino e fragilizar o setor legalizado.
O IBJR alega que um desequilíbrio na carga tributária aumenta o risco de operadores licenciados migrarem para a clandestinidade, comprometendo a arrecadação. No entanto, essa defesa não aborda o impacto social bilionário e a necessidade urgente de financiar o tratamento para os viciados.
Expansão Acelerada e Impacto no Público Jovem
A tecnologia digital e a publicidade agressiva, muitas vezes com participação de celebridades e influenciadores, aceleraram a disseminação das apostas online. A facilidade de acesso via smartphones e a normalização da prática inseriram as bets no cotidiano de milhões de brasileiros.
A atuação de influenciadores digitais, atingindo diretamente o público jovem, é um ponto de grande preocupação. A apresentação das apostas como caminho rápido para ganhos ignora os riscos de endividamento, contribuindo para a normalização do transtorno do jogo entre os mais vulneráveis.
Um dos impactos mais dolorosos é o endividamento familiar. A ilusão de ganhos rápidos leva muitos a comprometerem o orçamento doméstico. O gasto de R$ 3 bilhões por beneficiários do Bolsa Família em apostas via Pix em um mês evidencia a profundidade do problema nas camadas mais pobres.
O estudo “A saúde dos brasileiros em jogo” lança um alerta urgente: a legalização das apostas online, sem regulação robusta, cobra um preço altíssimo da sociedade. A discrepância entre a receita arrecadada e os danos causados demonstra um modelo que favorece o lucro em detrimento do bem-estar coletivo. É fundamental que o Congresso Nacional e o Poder Executivo ajam rapidamente para garantir que a saúde mental dos brasileiros não seja a moeda de troca nesse mercado.




