O futuro do agronegócio brasileiro nas mãos do próximo presidente: desafios que vão além de um mandato
O agronegócio, pilar fundamental da economia brasileira, enfrenta uma série de desafios complexos que exigirão atenção e planejamento estratégico do próximo presidente. Questões como financiamento, seguro rural, adaptação às mudanças climáticas, dependência de insumos importados, melhorias na infraestrutura e a expansão do acesso a mercados internacionais compõem uma agenda de longo prazo.
Esses gargalos estruturais, conforme apontam especialistas e entidades como a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), demandam políticas públicas consistentes e investimentos que transcendem um único ciclo de governo. Embora algumas dessas pautas já estejam em discussão, a execução efetiva, a necessidade de escala e a atração de investimentos privados são cruciais para superar os obstáculos.
A interconexão desses problemas é notória: eventos climáticos adversos, por exemplo, podem impactar o endividamento dos produtores, reduzir investimentos e dificultar o acesso a crédito. Paralelamente, custos logísticos elevados e a dependência de insumos estrangeiros comprimem as margens de lucro. Essas informações foram compartilhadas por especialistas ouvidos pelo g1 e apresentadas em uma proposta da Abag, destacando a urgência de um plano de ação robusto.
Crédito e seguro rural: o alicerce financeiro em risco
O acesso ao crédito rural e a eficácia do seguro rural figuram entre as principais preocupações do setor. Especialistas como Felippe Serigati, da FGV Agro, observam um aumento no endividamento e em pedidos de recuperação judicial, levando instituições financeiras a serem mais seletivas na concessão de empréstimos. Leandro Gilio, do Insper Agro Global, relaciona essa dificuldade às perdas acumuladas em safras sucessivas, agravadas por eventos climáticos, juros altos e custos de produção elevados.
Essa retração financeira afeta toda a cadeia produtiva, pois reduz a capacidade de investimento em máquinas, tecnologia e insumos para as próximas safras. O seguro rural, por sua vez, ainda cobre uma parcela mínima da produção, com apenas cerca de 3% das atividades agropecuárias protegidas, segundo dados levantados. Embora a recente Lei 15.526/2026 traga um novo marco regulatório, com o Fundo de Catástrofe e a obrigatoriedade de despesas com subvenção, a recuperação da saúde financeira dos produtores e o reequilíbrio das carteiras bancárias ainda são passos necessários.
Dependência de insumos importados: vulnerabilidade externa
A forte dependência do Brasil de insumos importados, especialmente fertilizantes, expõe o agronegócio a crises externas. O país importa aproximadamente 80% dos fertilizantes que utiliza, tornando-se vulnerável a conflitos internacionais, flutuações cambiais e interrupções nas cadeias globais de suprimento. Crises recentes, como a pandemia e a guerra na Ucrânia, evidenciaram essa fragilidade.
O Plano Nacional de Fertilizantes busca mitigar essa vulnerabilidade com o aumento da produção nacional, mas os resultados dependem de investimentos de longo prazo. Carlos Eduardo de Freitas Vian, da Esalq-USP, ressalta que, embora o Brasil possua matérias-primas, as reservas não são suficientes para eliminar a importação. A diversificação de fornecedores é uma estratégia complementar importante.
A dependência de componentes eletrônicos, como chips, para máquinas agrícolas também é um desafio complexo, exigindo investimentos massivos para uma produção nacional em larga escala. O passivo regulatório, que se refere ao tempo para aprovação de novas tecnologias, também precisa ser otimizado, equilibrando a agilidade com a segurança ambiental e sanitária.
Infraestrutura defasada e conectividade no campo
O crescimento da produção agrícola brasileira pressiona uma infraestrutura logística que, em muitos casos, não acompanha o ritmo. Estradas, ferrovias, portos e sistemas de armazenamento enfrentam gargalos que elevam os custos de produção e comprometem as margens dos produtores. Serigati destaca que a infraestrutura é um dos problemas mais difíceis de solucionar em um único mandato presidencial.
A expansão do uso de ferrovias e hidrovias, combinada com o aumento da capacidade de armazenagem, é vista como essencial para reduzir custos em longas distâncias. No entanto, o processo de licenciamento de grandes obras e a necessidade de investimentos públicos e privados, incluindo concessões e parcerias público-privadas, são entraves a serem superados.
A infraestrutura de comunicação, com a necessidade de acesso à internet de qualidade no campo, também se tornou um fator crítico. Dados do IBGE indicam que mais de 1,3 milhão de domicílios rurais ainda não têm acesso à internet. A falta de conectividade limita o uso de tecnologias modernas, como agricultura de precisão e sistemas de monitoramento, exigindo políticas de Estado que incentivem a participação do setor privado.
Imagem do agronegócio e acesso a mercados internacionais
A comunicação e a valorização da agroindústria são frentes importantes para melhorar a percepção pública sobre a contribuição do setor para a segurança alimentar, a economia e a sustentabilidade. Vian enfatiza a necessidade de o Brasil apresentar suas vantagens competitivas, mas também de reconhecer e enfrentar problemas existentes, como questões ambientais e sociais, que afetam consumidores e compradores estrangeiros.
A construção de uma marca brasileira forte, associada à qualidade e origem dos produtos, como o café colombiano, pode agregar valor. Essa estratégia envolve associações, empresas e instituições de pesquisa, além do cumprimento rigoroso das regras ambientais e de combate ao desmatamento, que reforçam a reputação internacional. A antecipação às mudanças regulatórias em mercados compradores, como as restrições da União Europeia a antimicrobianos, é crucial para manter a competitividade e evitar barreiras comerciais não tarifárias.
O próximo presidente terá o desafio de criar condições para o crescimento do agronegócio com mais previsibilidade, infraestrutura, proteção financeira e diversificação de mercados, enfrentando eventos climáticos e crises internacionais. A capacidade de transformar políticas pontuais em estratégias de Estado, com colaboração público-privada, definirá o futuro de um setor estratégico para o país.




