Adoecimento por Apostas Online: Empresas Brasileiras Enfrentam Faltas, Dívidas e Crises Familiares de Funcionários

Adoecimento por apostas online: um desafio crescente para as empresas brasileiras
O aumento das apostas online tem gerado um impacto preocupante no ambiente corporativo brasileiro. Empresas de diversos portes relatam problemas como faltas frequentes de funcionários, endividamento e um número crescente de pedidos de adiantamento salarial, sinais claros de que o adoecimento por jogos está afetando a força de trabalho.
Essa realidade, antes distante, agora bate à porta de departamentos de recursos humanos, que se veem diante de um cenário inédito e complexo. A dificuldade em lidar com a ludopatia, termo que define o vício em jogos, tem levado a crises familiares e financeiras entre os colaboradores, demandando novas estratégias de gestão e apoio.
O problema, que já afeta desde pequenos negócios até grandes corporações, como a Ypê, Gerdau e Whirlpool, levanta preocupações sobre a saúde mental dos trabalhadores e a produtividade das empresas. Conforme informações divulgadas pela Folhapress, o impacto é sentido diretamente no RH, onde os relatos sobre as causas do adoecimento se acumulam.
O impacto no dia a dia das empresas
Maurício Nishimori, dono de um restaurante, compartilhou com a Folhapress o caso de um funcionário que, por três meses consecutivos, faltou ao trabalho um dia após receber o salário. A esposa do colaborador revelou que o motivo eram as apostas, um problema que tem se tornado cada vez mais comum.
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) também tem observado um aumento nos pedidos de adiantamento e uma notável desatenção por parte dos funcionários, que são indicativos de que algo não vai bem. Esses sinais, muitas vezes, precedem problemas maiores.
Nishimori, ao invés de demitir, optou por uma abordagem direta, alertando o funcionário sobre os riscos de perder o emprego, a família e a moradia. Ele reconhece a habilidade do colaborador e a dificuldade em encontrar mão de obra qualificada, optando por buscar ajuda para o funcionário, inclusive indicando o teleatendimento oferecido pelo SUS.
Empresas buscam soluções e conscientização
Diante desse cenário, grandes empresas como a Ypê, Gerdau e Whirlpool já implementaram ações de conscientização sobre os perigos das apostas. Essas iniciativas incluem oficinas educativas e programas de acolhimento para colaboradores que já enfrentam o vício.
Apesar de não divulgarem prejuízos financeiros diretos, as empresas reconhecem o impacto na saúde mental e na produtividade. A presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Leyla Nascimento, aponta que, embora os dados ainda sejam escassos, o endividamento e o jogo compulsivo podem afetar a economia.
No primeiro ano de mercado de apostas regulado, 2025, o número de afastamentos por ludopatia aumentou 59,8% em relação a 2024, segundo dados que apontam para 679 afastamentos. Este número, embora modesto comparado aos 4,5 milhões de afastamentos gerais registrados pelo INSS, sinaliza uma tendência preocupante.
Ludopatia e transtornos associados
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a ludopatia como o jogo que passa a ter mais importância do que outras áreas centrais da vida. O médico do trabalho Marcos Mendanha alerta que a desatenção e a relapsia podem levar a erros e até acidentes laborais.
Mendanha ressalta que a dependência de apostas, isoladamente, não gera incapacidade. Contudo, um estudo da Associação Europeia de Psiquiatria indica que 82% dos pacientes com transtorno do jogo possuem outros transtornos mentais associados, como dependência de substâncias, depressão e ansiedade. São esses transtornos que mais frequentemente levam a faltas e afastamentos prolongados.
Ações sindicais e jurídicas
A Federação dos Trabalhadores em Serviços (Femaco) tem realizado campanhas de conscientização sobre os riscos da ludopatia, alertando para casos extremos como o suicídio, como relatado pela documentarista Renata Ketendjian, que acompanhou 23 pessoas dependentes de apostas no último ano.
O presidente da Femaco, Roberto Santiago, expressou preocupação com a situação, destacando trabalhadores que perdem salários, recorrem a empréstimos ilegais e adoecem emocionalmente devido ao vício em apostas online. A acessibilidade do jogo no celular é um fator agravante.
Casos judiciais já refletem demissões ligadas ao comportamento compulsivo pelo jogo, e o Tribunal Superior do Trabalho (TST) avalia se a ludopatia deve ser equiparada à dependência química para reversão de justa causa. A falta de comunicação do quadro clínico ao empregador tem sido um obstáculo nesses processos.
O diretor de saúde e bem-estar da ABRH orienta que os funcionários busquem o RH para acolhimento, em vez de serem demitidos por justa causa. A recomendação é o encaminhamento para avaliação médica, tratamento e, se necessário, afastamento pelo INSS, visando a recuperação do trabalhador e a manutenção do emprego.