O número de brasileiros com o nome negativado voltou a crescer em 2025, refletindo a dificuldade de muitas famílias em manter as contas em dia em meio a juros altos, inflação persistente e um mercado de trabalho ainda em recuperação. De acordo com dados divulgados pela Boa Vista, empresa de análise de crédito, o país já contabiliza 60 milhões de consumidores inadimplentes, o que representa cerca de 37% da população adulta.
O levantamento mostra que o endividamento das famílias segue em patamar elevado, e a inadimplência se espalha por diferentes faixas de renda. Contas de consumo, como água, luz, gás e telefonia, lideram o ranking de dívidas não pagas, seguidas por pendências com cartões de crédito, empréstimos pessoais e financiamentos.
Crescimento da inadimplência em 2025
Segundo a Boa Vista, o número de negativados em setembro de 2025 representa um aumento de 4,2% em relação ao mesmo período do ano passado e de 1,1% em comparação com o mês anterior. A tendência preocupa economistas e especialistas em finanças pessoais, pois indica que, mesmo com programas de renegociação e campanhas de educação financeira, os consumidores ainda enfrentam grande dificuldade para equilibrar o orçamento.
“O endividamento é um reflexo direto da queda no poder de compra das famílias. Os salários não acompanharam o aumento dos preços, e isso fez com que muitas pessoas recorressem ao crédito para manter o padrão de vida”, explica Ana Paula Rezende, economista da Boa Vista. “O problema é que, quando o crédito é usado de forma emergencial e sem planejamento, a inadimplência se torna inevitável.”
Juros altos agravam o cenário
Um dos principais fatores que contribuem para o aumento das contas em atraso é o alto custo do crédito. Apesar de o Banco Central ter iniciado um ciclo de corte na taxa Selic, os juros cobrados pelos bancos e financeiras ainda permanecem elevados. O rotativo do cartão de crédito, por exemplo, ultrapassa 400% ao ano, o que torna quase impossível quitar dívidas que entram nessa modalidade.
“Quando o consumidor paga apenas o mínimo da fatura, o valor cresce rapidamente, e em poucos meses se torna impagável”, observa o consultor financeiro Ricardo Cury. “Muitos brasileiros acabam presos em um ciclo de endividamento em que usam novos créditos para pagar dívidas antigas.”
Esse efeito em cadeia tem impacto direto na economia. Com mais pessoas inadimplentes, o consumo desacelera, afetando o comércio e os serviços. Além disso, empresas passam a restringir o crédito, exigindo garantias maiores ou elevando os juros, o que agrava ainda mais a exclusão financeira.
Contas básicas puxam o endividamento
De acordo com o levantamento da Boa Vista, as contas de consumo foram responsáveis por 38% das novas negativações registradas em 2025. Isso significa que milhões de brasileiros deixaram de pagar luz, água ou internet, priorizando gastos com alimentação e transporte. Em segundo lugar aparecem as dívidas bancárias, com 34%, seguidas por pendências no comércio varejista (17%) e serviços diversos, como escolas e planos de saúde (11%).
Esse cenário reflete a dificuldade das famílias em administrar despesas essenciais. Com a inflação acumulada em 4,9% nos últimos 12 meses e o aumento dos custos com energia e combustíveis, o orçamento doméstico ficou mais apertado. Em muitas casas, o salário não cobre todas as despesas mensais, levando à escolha entre pagar uma conta ou comprar alimentos.
Jovens e mulheres lideram as estatísticas
Outro dado revelado pela pesquisa da Boa Vista é o perfil dos novos inadimplentes. A faixa etária entre 25 e 39 anos concentra 42% dos negativados, indicando que a geração mais ativa economicamente é também a mais endividada. Além disso, as mulheres representam 53% dos nomes inscritos em cadastros de inadimplência.
Especialistas apontam que esse grupo é fortemente afetado pela pressão do custo de vida e pela responsabilidade financeira com a família. “Muitas mulheres são chefes de família e acabam priorizando despesas com filhos e alimentação, deixando contas bancárias e de crédito em segundo plano”, comenta a economista Mariana Alves, professora da Fundação Dom Cabral.
Os jovens também têm enfrentado dificuldades para administrar o crédito. O acesso facilitado a cartões, aplicativos de pagamento e compras parceladas contribui para o consumo descontrolado. “A falta de educação financeira nas escolas e o apelo do consumo digital levam muitos jovens a se endividarem antes mesmo de alcançar estabilidade financeira”, alerta Mariana.
Iniciativas de renegociação e recuperação de crédito
Diante do aumento do número de inadimplentes, empresas e instituições financeiras têm intensificado programas de renegociação. O Feirão Serasa Limpa Nome, por exemplo, registrou recorde de adesões em 2025, com mais de 10 milhões de acordos firmados apenas no primeiro semestre.
A Boa Vista também lançou campanhas como o “Acertando Suas Contas”, que oferece descontos e condições facilitadas para regularização de dívidas. Segundo a empresa, 70% das pessoas que negociam conseguem limpar o nome em até 90 dias.
Além disso, o governo federal estuda novos mecanismos de renegociação voltados a famílias de baixa renda, em parceria com bancos públicos. O objetivo é ampliar o alcance de programas como o Desenrola Brasil, criado em 2023, que já retirou mais de 15 milhões de brasileiros da lista de inadimplentes.
Impactos na economia e no crédito
O aumento do número de negativados tem implicações diretas na economia. Com mais pessoas impedidas de acessar crédito, o consumo tende a cair, o que limita o crescimento do comércio e dos serviços. Isso também afeta a concessão de financiamentos imobiliários e automotivos, setores que dependem de crédito de longo prazo.
Por outro lado, analistas apontam que o cenário pode começar a melhorar a partir do final de 2025, com a continuidade da queda da Selic e uma possível recuperação do mercado de trabalho. “Se os juros recuarem e a renda real das famílias aumentar, a inadimplência pode começar a estabilizar”, avalia Cury.
A retomada, porém, deve ser lenta. “Ainda há um longo caminho para que o brasileiro volte a ter confiança e capacidade de consumir sem se endividar. É necessário um esforço conjunto entre governo, bancos e sociedade para promover educação financeira e crédito responsável”, completa o especialista.





