Agronegócio Transforma o Brasil: Interior Vira Novo Motor de Produtividade e Reduz Desigualdade Social

O agronegócio brasileiro está redefinindo o cenário econômico do país, com o interior do Brasil assumindo o protagonismo na geração de produtividade e na redução das desigualdades sociais. Essa transformação se estende para além das lavouras, irrigando diversos setores da economia e fortalecendo a posição do Brasil no mercado global de alimentos.
A força motriz do ganho de eficiência do Brasil não reside mais nos tradicionais centros industriais. Agora, o motor da produtividade nacional opera no interior, impulsionado pela pujança do agronegócio, especialmente no Centro-Oeste, e pela expansão para novas fronteiras agrícolas. Essa mudança geográfica traz consigo um impacto positivo na redução da desigualdade social.
O dinamismo do agro vai muito além do campo, atuando como um catalisador para uma extensa rede econômica. Ele irriga setores como transporte, comércio, construção civil, tecnologia, crédito e o vasto setor de serviços, que responde por cerca de 70% da economia nacional. Além disso, alimenta diretamente as cadeias industriais, demonstrando sua importância transversal.
Conforme informação divulgada pela Folhapress, quase 70% da produção agrícola nacional abastece a indústria de alimentos, consolidando o Brasil como um “supermercado” global e uma das maiores potências do setor no mundo. O país se destaca pela liderança em produtividade agrícola, um feito construído com décadas de investimento em pesquisa e tecnologia adaptada às condições tropicais, com destaque para o papel da Embrapa.
Agro Lidera Crescimento de Produtividade e Muda o Mapa Econômico
No primeiro semestre, as exportações da indústria de alimentos alcançaram US$ 33 bilhões (R$ 170 bilhões), um aumento significativo em receita e volume em comparação com o mesmo período do ano anterior. Esses números representaram 18% das vendas externas totais do Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia).
Esse desempenho vibrante contrasta fortemente com a perda de fôlego da indústria tradicional, concentrada majoritariamente no Sudeste. A participação da indústria de transformação no PIB nacional sofreu uma redução expressiva, caindo de 15,7% para 9,8% desde 1995, uma queda de 38%, atribuída à perda estrutural de competitividade.
Um estudo sobre a produtividade do trabalho em mais de 5.500 municípios brasileiros, citado pela Folhapress, revela a magnitude dessa mudança. Entre 2002 e 2019, a produtividade geral do país cresceu 18,7%. Na agropecuária, o avanço foi impressionante, atingindo 80,1%, enquanto nos serviços o crescimento foi de 10,3% e na indústria, apenas 5,4%.
Estados Fora do Eixo Tradicional Ganham Destaque Nacional
Estados que antes eram considerados periféricos agora concentram alguns dos maiores ganhos de eficiência do país. O Piauí, por exemplo, liderou o crescimento da produtividade com uma alta de 103%, seguido pelo Maranhão com 86% e Tocantins com 69,7%. Em contrapartida, estados como São Paulo registraram um aumento modesto de apenas 1,2%, e o Rio de Janeiro, 4%.
Mato Grosso emerge como um dos símbolos dessa transformação, apresentando um crescimento de produtividade nove vezes superior à média nacional nos últimos anos. Essa expansão do agronegócio em novas fronteiras agrícolas tem um impacto direto na redução das desigualdades sociais, criando oportunidades em regiões que historicamente enfrentavam maiores desafios econômicos.
O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) foi estimado pelo Ministério da Agricultura em R$ 1,39 trilhão em julho, evidenciando a dimensão econômica do setor. Esse volume expressivo se desdobra em uma extensa cadeia produtiva, demandando máquinas, fertilizantes, sementes, crédito e tecnologia, e impulsionando o transporte, armazenagem e o comércio após a colheita.
Desafios e Oportunidades na Nova Fronteira Agrícola
Apesar do crescimento robusto, o setor agropecuário enfrenta desafios na contratação de mão de obra. Um levantamento da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) indica que 94,8% dos produtores relatam dificuldades em encontrar trabalhadores, mesmo com os salários no agro tendo avançado 35,2% entre 2022 e 2025, superando a média de outros setores.
Uma das razões apontadas é a migração de trabalhadores agrícolas para o setor de serviços, que também tem apresentado crescimento. O professor de economia Alan Bueno destaca que o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) representa o “novo ouro” do agronegócio, comparável ao papel do Centro-Oeste nos anos 1950, impulsionando uma mudança significativa na realidade regional.
O estudo de Bueno, que incorpora dados de emprego formal e informal para estimar a produtividade, revela que em municípios como Sapezal (MT), a probabilidade de crianças se tornarem adultas entre os 10% mais ricos chega a 3,9%, bem acima da média nacional de 1,8%. Esse cenário é favorecido pelo aproveitamento da receita municipal em bons serviços de educação e saúde, promovendo a mobilidade social.
O ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, ressalta que os investimentos no agro geram um ciclo virtuoso de desenvolvimento local, com a multiplicação de oportunidades. Ele enfatiza, no entanto, que o Brasil precisa avançar na abertura de novos mercados, especialmente para produtos alimentícios mais sofisticados, transformando essa questão em uma “agenda de Estado” para ampliar o valor agregado e reforçar a segurança alimentar mundial.
A indústria de alimentos, por sua vez, opera com alta escala e eficiência, investindo em tecnologia, logística e sustentabilidade. O grande desafio, segundo Cleber Sabonaro, gerente da Abia, é transformar essa força em maior valor agregado e consolidar a presença brasileira nos mercados globais.