Desertificação no Brasil: 39 Milhões em Risco de Perder Terra Produtiva e Água, Impactando Alimento e Clima

Desertificação no Brasil: Um Alerta Vermelho para a Segurança Hídrica e Alimentar

Cerca de 39 milhões de brasileiros vivem em áreas sob forte ameaça de desertificação, um processo de degradação ambiental que transforma terras antes produtivas em locais incapazes de sustentar vida. Este fenômeno, impulsionado por atividades humanas como o desmatamento e a agricultura inadequada, além de variações climáticas, tem se expandido pelo território nacional, como aponta a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).

A desertificação, embora possa soar distante para quem não vive nas regiões mais afetadas, representa um risco crescente para a produção de alimentos, a disponibilidade de água potável e a economia em geral. Os impactos se estendem do campo às cidades, afetando a todos nós.

O Brasil se prepara para discutir o tema na 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), na Mongólia, buscando soluções e estratégias para reverter esse quadro preocupante. Conforme informações da Agência Brasil, o país busca fortalecer políticas públicas e apresentar iniciativas inovadoras.

Avanço Alarmante da Degradação da Terra no Brasil

Entre os anos de 2000 e 2020, a área afetada pela desertificação no Brasil cresceu em impressionantes 170 mil km², um aumento equivalente à soma dos territórios de Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Este avanço não se restringe apenas ao Nordeste, alcançando também partes de Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul.

O país possui regiões classificadas por diferentes índices de aridez, variando do subúmido seco ao semiárido e árido. Em 2023, foi identificada a primeira região hiperárida do Brasil, abrangendo 6 mil km² entre Pernambuco e Bahia, um sinal claro da intensificação do problema.

Caatinga: Um Bioma Essencial na Luta Contra a Desertificação e o Aquecimento Global

A Caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, é a região que concentra os níveis mais graves de deterioração do solo, com 11% de sua área em situação crítica. No entanto, a Caatinga também se revela um protagonista na solução, atuando como um sumidouro de carbono fundamental. Pesquisadores do Instituto Nacional do Semiárido (Insa) destacam que o bioma armazena uma quantidade significativa de carbono no solo, com alta eficiência, contribuindo para o equilíbrio climático global.

Estudos indicam que a Caatinga foi responsável por cerca de 50% do sequestro líquido de carbono do Brasil em 2022, compensando parte expressiva das emissões nacionais de gases de efeito estufa. Proteger este bioma é, portanto, essencial não apenas para a biodiversidade e as comunidades locais, mas também para o planeta.

Políticas Públicas e Iniciativas para Reverter a Desertificação

Em resposta aos desafios impostos pela desertificação, o Brasil lançou, em março de 2026, o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB-Brasil 2025–2043). Este plano articula diversas áreas, como meio ambiente, educação, saúde e infraestrutura, visando enfrentar o problema de forma integrada.

Outra iniciativa promissora é o Programa Recaatingar, lançado em junho deste ano. Com a meta de recuperar 10 milhões de hectares de terras degradadas na Caatinga nos próximos 20 anos, o programa foca na segurança hídrica, restauração socioprodutiva e adaptação às mudanças climáticas, valorizando o conhecimento tradicional das comunidades locais.

A metodologia do recaatingamento envolve práticas como manejo agrossilvipastoril e sistemas agroflorestais, que comprovadamente aumentam a oferta de forragem, a biomassa e a capacidade de retenção de solo, além de devolver água e fertilidade ao ecossistema. A Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA) também desempenha um papel crucial, promovendo há mais de 25 anos soluções como captação de água da chuva e o fortalecimento de sementes adaptadas ao clima local.

A Importância da Agricultura Familiar e Comunidades Locais

A luta contra a desertificação, segundo Ivi Aliana, coordenadora da ASA, passa necessariamente pela agricultura familiar, pela agroecologia e pelas pessoas vivendo e cuidando desses territórios. Não se trata de soluções impostas de cima para baixo, mas de um processo que envolve diretamente as comunidades que dependem e conhecem essas terras.

A recuperação do solo degradado é vista como um caminho estratégico para garantir trabalho, emprego e renda, ao mesmo tempo em que se presta um serviço vital à humanidade no enfrentamento dos desastres climáticos. Olhar para a potência e a resiliência desses territórios é fundamental para construir um futuro mais sustentável.

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