Grande Sertão: Veredas, Obra-Prima de Guimarães Rosa, Completa 70 Anos e Ainda Desafia e Encanta Leitores e Críticos

Grande Sertão: Veredas, Obra-Prima de Guimarães Rosa, Completa 70 Anos e Ainda Desafia e Encanta Leitores e Críticos
Lançado em 1956, Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, transcende o tempo e as fronteiras geográficas, mantendo sua força e relevância na literatura mundial. A obra, celebrada por sua ousadia formal e profundidade temática, continua a instigar leitores e a ser objeto de estudo por especialistas, reafirmando seu status como um dos pilares da literatura brasileira.
O livro, que narra as andanças do jagunço Riobaldo em busca de sentido e redenção, é notável pelo uso inovador da linguagem, que mistura o erudito ao popular, o arcaico ao neologismo. Essa fusão linguística, que inicialmente gerou estranhamento, é hoje reconhecida como um dos grandes trunfos da obra, aproximando o leitor da alma do sertão e de seus habitantes.
Para Eduardo Giannetti, professor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Grande Sertão: Veredas é um marco da literatura nacional, uma obra que combina um rigor formal “inexcedível” com uma entrega criativa quase mediúnica. Ele destaca a forma como Rosa conseguia transcrever algo que parecia vir de fora dele, uma possessão criativa que resultou em um texto único.
O processo criativo e a inspiração de Guimarães Rosa
A gênese de Grande Sertão: Veredas está intrinsecamente ligada à vivência de Guimarães Rosa. A obra começou a ser concebida a partir de uma viagem que o autor fez com um amigo pelo interior de Minas Gerais, percorrendo a região de veredas e buritizais. Esse cenário, antes não explorado em seus trabalhos anteriores como Sagarana, tornou-se o palco principal de sua obra mais célebre.
O jornalista Leonêncio Nossa, autor da primeira biografia sobre Rosa, revela que o escritor produziu paralelamente Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, uma coletânea de novelas, entre 1946 e 1956. O romance, inclusive, teve suas origens dentro de Corpo de Baile, sendo posteriormente desmembrado em uma obra independente.
Nossa, que dedicou dez anos à pesquisa para sua biografia, ressalta a obstinação de Rosa em desenvolver uma grande literatura, transformando a simplicidade do povo brasileiro em uma linguagem de riqueza universal. Ele descreve a vida do escritor como agitada, repleta de riscos e dedicada inteiramente ao seu projeto literário desde a infância.
A linguagem que desafiou e conquistou
No lançamento de Grande Sertão: Veredas, a linguagem utilizada por Guimarães Rosa foi alvo de muitas críticas. Os críticos da época consideravam a fala dos personagens “de outro planeta”, desconhecendo a riqueza e a autenticidade do vocabulário popular do interior do Brasil. Rosa, por sua vez, defendia que não inventava uma língua, mas sim retratava a fala dos vaqueiros de Minas Gerais, Bahia e Goiás.
Palavras como “nonada”, que muitos acreditavam ser um neologismo, eram, na verdade, expressões recorrentes em jornais da época. Rosa tinha o dom de resgatar e dar nova vida a termos menos usuais, criando uma sonoridade única em sua prosa. Essa musicalidade, segundo Nossa, é o que gera tanta empatia com o leitor, tornando a leitura em voz alta uma experiência ainda mais rica.
A cantora e compositora Adriana Calcanhoto destaca a importância do trabalho de Rosa na preservação dessa forma de falar popular. Ela enfatiza que a leitura de Grande Sertão: Veredas é obrigatória, pois a obra se transforma a cada releitura, e o leitor também se modifica após mergulhar em suas páginas. A aceitação mundial do livro, apesar da dificuldade de tradução, comprova sua universalidade.
Conexões pessoais e o legado de um gênio
Eduardo Giannetti, atual ocupante da Cadeira 2 da ABL, que já foi de Guimarães Rosa, descobriu recentemente, através da biografia de Leonêncio Nossa, um parentesco com o escritor. Ele é descendente de uma família próxima à de Rosa, o que ele considera um fechamento de ciclo e uma confirmação de que “nada nesse mundo é por acaso”.
A proximidade com a obra de Rosa, intensificada pela descoberta do parentesco e pela ocupação da cadeira na ABL, levou Giannetti a escrever um ensaio sobre o autor, publicado na Revista Piauí e em uma edição comemorativa de Grande Sertão: Veredas. Ele expressa sua felicidade em sempre ser chamado para falar sobre o escritor mineiro.
Grande Sertão: Veredas não é apenas um livro; é um universo. Sua longevidade e a admiração que desperta em diversas áreas, como na música e na academia, comprovam o gênio de Guimarães Rosa e o poder transformador de sua obra. A cada ano que passa, o romance se consolida ainda mais como um tesouro da literatura, oferecendo novas camadas de significado para cada leitor que se aventura por suas veredas.