O embate entre o afeto e a frieza tecnológica: a ficção científica brasileira em ‘Futuro Futuro’
O cinema brasileiro mergulha em reflexões profundas com a chegada de Futuro Futuro, longa de Davi Pretto que conquistou o Festival de Brasília em 2025. Ambientado em um futuro incerto, o filme nos apresenta a K, um homem solitário e sem memória em um mundo assolado por uma epidemia peculiar: aquela que não mata o corpo, mas devora a essência do que nos define, a memória. Este cenário nos insere diretamente no campo da ficção científica nacional, um gênero que, segundo o cineasta e crítico Thiago Barcellos, nos devolve a imagem de um país marcado pela repressão, pelo clima sombrio e pela precariedade.
A tecnologia em Futuro Futuro funciona como um espelho da nossa própria desorientação contemporânea. O filme retrata personagens amnésicos submetidos a máquinas que disparam estímulos aleatórios, uma metáfora poderosa para a nossa navegação nas redes sociais e as consultas quase místicas que fazemos a inteligências artificiais. Nessas interações, a imagem deixa de representar o mundo para, deliberadamente, alterá-lo, questionando nossa percepção da realidade.
Nesta obra, a ideia de heroísmo se esvai, dando lugar a uma passividade paralisante. O protagonista, diante de uma distopia que sugere um apocalipse iminente, encarna a figura do torcedor que grita para a TV, acreditando influenciar um jogo sobre o qual não tem controle. Essa é uma representação contundente da nossa impotência política, a ilusão de que postar, opinar ou reagir online nos confere alguma efetividade real.
O filme de Davi Pretto nos confronta com uma verdade existencial desconfortante: diante de tecnologias que moldam nosso pensamento e algoritmos que ditam comportamentos, talvez não haja mais um inimigo claro contra quem lutar. A distopia que nos governa, em muitos aspectos, já se tornou indistinguível da nossa própria realidade.
O Amor como Refúgio na Era do Algoritmo
Apesar desse cenário sombrio, Futuro Futuro não se rende ao niilismo. A obra defende a ideia de que o ser humano é intrinsecamente ligado ao outro, e que o olhar alheio é mais fundamental como espelho do que a expansão de nossas próprias fronteiras. Essa percepção não é apenas um consolo, mas um chamado à ação, como aponta Thiago Barcellos.
A Luta entre a Subjetividade Humana e a IA
O filme encena essa necessidade no confronto entre o humano e o algoritmo. De um lado, a fragilidade de um rosto que já não carrega memórias. Do outro, o Oráculo, uma inteligência artificial que usurpa o passado e escaneia a subjetividade restante, devolvendo-a em fragmentos. Este embate ressalta a batalha pela preservação da identidade em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia.
A Urgência do Afeto em um Mundo Desmemoriado
Quando as certezas se esgotam e o conhecimento se revela parcial e finito, o amor emerge como um elemento salvador. Ao propor algo que transcende o racionalismo frio e mecânico dos algoritmos, a obra de Pretto encontra sua dimensão mais profunda. É nesse espaço, entre a ruína tecnológica e a urgência do afeto, que Futuro Futuro revela sua verdadeira razão de existir, conforme análise de Thiago Barcellos.
A ficção científica brasileira, representada por Futuro Futuro, nos convida a refletir sobre o presente e o futuro, questionando o impacto da tecnologia em nossas vidas e a importância insubstituível das conexões humanas e do afeto em um mundo cada vez mais digitalizado e, por vezes, desmemoriado.





