Crise Global Ameaça Potência do Agro Brasileiro: Dependência de Fertilizantes e Planejamento Deficiente em Foco
O agronegócio brasileiro, reconhecido mundialmente por sua força e capacidade produtiva, encontra-se em um momento de reflexão e alerta. Conflitos globais e a acentuada dependência externa, especialmente na importação de fertilizantes, criam um cenário de vulnerabilidade que desafia a posição de liderança do país no setor. A recente escalada de tensões no Oriente Médio, com o conflito entre Irã e Estados Unidos, evidenciou a fragilidade da cadeia de suprimentos, impactando diretamente os custos e a disponibilidade de insumos essenciais.
Durante o Alagro Summit, realizado em Belo Horizonte, especialistas e representantes do setor discutiram os desafios prementes. A necessidade de investir em alternativas nacionais para a produção de fertilizantes e o fortalecimento da imagem do agronegócio brasileiro no exterior, por meio de uma comunicação mais eficaz, foram pontos centrais do debate. A alta dependência de importações, que atinge cerca de 90% do total consumido, é vista como um fator de grande preocupação, segundo Manoel Mário de Souza Barros, presidente da Academia Latino-Americana do Agronegócio (Alagro).
O fechamento de rotas comerciais estratégicas, como o Estreito de Ormuz, é um risco concreto para a geoeconomia global e, consequentemente, para o agro brasileiro. Apesar da projeção de uma safra recorde de grãos, estimada pela Conab em quase 360 milhões de toneladas, a preocupação com a redução da produtividade futura, devido à exaustão do solo e à dificuldade de acesso a fertilizantes, é palpável. A falta de discussão governamental sobre esses impactos futuros foi apontada como uma lacuna.
Fragmentação Global e Riscos para o Agronegócio
Marcos Sawaya Jank, professor sênior e coordenador do centro “Insper Agro Global”, descreve a atual conjuntura como uma transição de crise geopolítica para uma crise geoeconomica. Essa nova realidade é marcada pela bipolaridade entre Estados Unidos e China, pelo ressurgimento do protecionismo e pela priorização da segurança nacional em detrimento do livre-comércio.
Essa fragmentação global tem reflexos diretos no agronegócio, com o Estreito de Ormuz exemplificando o impacto no fornecimento de petróleo, gás natural e fertilizantes. A situação atual gera um risco de desabastecimento e uma incerteza sem precedentes para o setor.
Jank ressalta que as commodities, incluindo as agropecuárias, estão no centro de disputas globais. O Brasil, com 75% de suas exportações concentradas em commodities, ocupa uma posição estratégica. Contudo, a dependência de fertilizantes e a carência de refinarias para a produção de diesel, mesmo sendo exportador de petróleo, são vulnerabilidades significativas. Apesar disso, o país tem uma grande oportunidade de se posicionar como líder em agricultura sustentável, bioenergia renovável e minerais críticos.
Planejamento e Comunicação: Gargalos Históricos do Agro Brasileiro
Marcello Brito, diretor do Centro Global Agroambiental da Fundação Dom Cabral (FDC), reconhece o avanço agronômico do Brasil nos últimos 50 anos, mas aponta a carência de estratégia e gestão no agronegócio. Ele afirma que, enquanto o país é quase imbatível em termos agronômicos, ainda está no século passado em gestão econômica, financeira e ambiental.
A questão dos fertilizantes ilustra essa falta de planejamento. O Plano Nacional de Fertilizantes, previsto para 2010, só foi implementado em 2022 e revisado em 2023, com a projeção de que o Brasil ainda manterá 50% de dependência externa até 2050. Brito destaca o potencial não explorado para reduzir essa dependência, como a produção de biometano para diminuir o uso de diesel e a fabricação de fertilizantes a partir de dejetos de aves e suínos.
A ausência de políticas públicas e sistemas de financiamento para essas alternativas contrasta com as políticas existentes nos Estados Unidos, Europa e China, sendo que a China, inclusive, restringe a exportação de produtos de interesse brasileiro. A falta de uma política robusta de fertilizantes é um ponto crítico.
Fortalecendo a Imagem e o Orgulho Nacional no Agronegócio
O ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, enfatiza a falha na comunicação e na construção do “orgulho nacional” em relação ao agro. Ele defende investimentos em campanhas de marketing para demonstrar o potencial e a importância do setor, não apenas para o abastecimento global e o combate à fome, mas também como um instrumento de paz.
Rodrigues aponta que a maioria dos brasileiros não reconhece a magnitude do agronegócio, o que impede a valorização do setor e a transformação desse sentimento em ação concreta. Ele compara a situação com a França, onde o orgulho nacional em relação ao setor impulsiona o governo a defendê-lo. “Eu quero ser campeão mundial da paz através do agro”, declarou.
José Luiz Tejon, conselheiro da Alagro, corrobora a visão sobre a incompetência de comunicação do Brasil, que falha em transmitir a grandeza e a tecnologia embarcada em sua produção agrícola. Ele descreve essa defasagem como um “déficit brutal entre o tamanho da nossa realidade e a nossa percepção”, que só pode ser resolvido com uma estratégia de propaganda e comunicação inteligente, carinhosa, empática e humana. Tejon conclui que é preciso fazer a comunicação brasileira com afeto, sem retaliar agricultores de outros países.





