Avanço do morango egípcio no mercado brasileiro acende sinal vermelho para produtores de Minas Gerais, que lutam contra a concorrência desleal e a queda abrupta nos preços do produto congelado.
A produção de morango em Minas Gerais, estado que lidera o ranking nacional, enfrenta um novo e preocupante desafio. A importação de morango congelado proveniente do Egito registrou um crescimento expressivo, gerando apreensão entre os agricultores locais. O cenário atual, marcado pela queda nos preços e pela dificuldade em escoar a produção, levanta debates sobre práticas de comércio e a sustentabilidade do setor.
O morango congelado, geralmente menor e com menor valor agregado em comparação à fruta in natura, é destinado principalmente à indústria de processamento de alimentos. Tradicionalmente, essa parcela da produção representa entre 10% a 20% do total colhido. No entanto, a recente onda de importações egípcias tem desestabilizado este mercado, impactando diretamente a renda dos produtores.
Os números divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) revelam a magnitude do fenômeno. A importação de morango congelado do Egito saltou de 2,2 mil toneladas em 2022 para impressionantes 35,9 mil toneladas em 2025, um aumento de cerca de 1.400%. Esse volume representa mais de 15 vezes o registrado anteriormente, conforme aponta reportagem da Folhapress.
Acordo de Livre Comércio Impulsiona Chegada do Fruto Egípcio
A disparada nas importações está diretamente ligada ao acordo de livre comércio entre o Mercosul e o Egito, em vigor desde 2017. O morango, classificado na cesta D do acordo, tem visto seu imposto de importação reduzir progressivamente 10% ao ano, com a expectativa de chegar a zero em setembro de 2026. Essa política facilitou a entrada massiva do produto egípcio, que é o principal exportador mundial de morango congelado.
Entre janeiro e novembro de 2025, as exportações egípcias de morango congelado somaram cerca de US$ 672 milhões. Deste montante, aproximadamente 5%, o equivalente a US$ 33,3 milhões, foi direcionado ao Brasil no mesmo período, evidenciando a forte presença do país africano no mercado nacional.
Preços em Queda Livre e Mercado Instável Abalam Pequenos Produtores
Produtores brasileiros relatam uma queda significativa no apetite dos compradores de morango congelado. Denis Dias, um agricultor de Alfredo Vasconcelos, em Minas Gerais, testemunha a dura realidade. Ele viu o preço do quilo do morango congelado despencar de R$ 10 em novembro de 2025 para R$ 6 atualmente. Mesmo o morango in natura, que chegou a ser vendido a R$ 25 o quilo no Natal, agora custa cerca de R$ 10.
O custo de produção para Denis é de R$ 4,50 por quilo. Em 2025, o morango congelado egípcio entrou no Brasil a um custo médio de US$ 1 (aproximadamente R$ 5,16) por quilo, segundo o Mdic. Essa diferença de preço coloca os produtores brasileiros em desvantagem competitiva.
Investigação de Antidumping é Considerada
Diante do cenário de concorrência desleal, a possibilidade de abertura de um processo de antidumping para o morango egípcio está sendo estudada. Mariana Marotta, analista de agronegócios do sistema Faemg, destaca que a maioria dos produtores mineiros são pequenos agricultores, que dependem exclusivamente do cultivo de morango. A migração para outras culturas pode não ser uma opção viável, e a espera por investigações que podem durar anos é um risco considerável.
O dumping, prática de exportar produtos a preços inferiores aos do mercado interno ou abaixo do custo de produção, pode gerar distorções graves no mercado. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) já acompanha o caso e avalia os próximos passos para proteger a produção nacional de morango.
Um Futuro Incerto para o Morango Brasileiro
A situação atual levanta sérias preocupações sobre o futuro da produção de morango no Brasil, especialmente para os pequenos e médios produtores que formam a espinha dorsal do setor em Minas Gerais. A dependência de acordos comerciais e a falta de mecanismos eficazes de proteção contra práticas de comércio desleal podem comprometer a sustentabilidade e a competitividade da fruta brasileira no mercado interno.
A análise do impacto econômico das importações massivas de morango congelado do Egito e a busca por soluções que garantam um ambiente de negócios justo e equitativo são urgentes para salvaguardar a produção nacional e o sustento de milhares de famílias agricultoras.





