Guerra no Irã acende alerta para a segurança energética do Brasil e acelera debate sobre o futuro dos combustíveis
O atual conflito no Oriente Médio, com ataques ao Irã e a possibilidade de fechamento do Estreito de Ormuz, está gerando um novo choque no preço do petróleo, expondo a vulnerabilidade energética do Brasil. Essa instabilidade global ressalta a urgência de o país reavaliar sua dependência de combustíveis fósseis e a necessidade de investimentos em sua própria capacidade de refino.
A interrupção de projetos de ampliação do refino no Brasil, somada a fatores como a Operação Lava Jato e a influência de multinacionais do petróleo, agravou a situação. Agora, com o mercado internacional de energia em ebulição, o Brasil se vê em uma posição delicada, dependente de importações para suprir sua demanda interna, especialmente por diesel.
A análise é do ex-presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, em recente entrevista, onde também lançou seu livro “Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro”. Ele aponta que, embora a guerra possa alterar a geografia do comércio de petróleo, beneficiando países como Brasil, Canadá e Guiana, a falta de capacidade de refino interna deixa o país exposto às turbulências globais.
O impacto da guerra no comércio global de petróleo e gás
Segundo José Sergio Gabrielli, a guerra no Irã representa o terceiro grande choque do petróleo na história, com potencial para gerar efeitos estruturais tanto no mercado de petróleo quanto no de gás. Ele destaca que os ataques às principais fontes produtoras de gás do mundo e a construção de novas refinarias no Oriente Médio, com destino principal à China e Índia, podem alterar o fluxo comercial.
A política externa dos Estados Unidos, com intervenções na Venezuela e no Irã, é vista como uma tentativa de controle do mercado. Gabrielli explica que o petróleo venezuelano é compatível com as refinarias norte-americanas, enquanto o petróleo iraniano, que alimenta um mercado paralelo devido às sanções, também se torna um alvo estratégico. A capacidade do Irã de controlar o Estreito de Ormuz e exigir pagamentos em yuans também sinaliza uma mudança na dinâmica do uso do dólar nas negociações.
Brasil em nova conjuntura: segurança energética e capacidade de refino
A nova conjuntura energética global impõe ao Brasil o desafio de aumentar sua segurança energética. Gabrielli enfatiza a dependência brasileira de importação de diesel, que representa entre 20% e 30% do mercado nacional. Para mitigar esse risco, é crucial expandir a capacidade de refino do país.
O ex-presidente da Petrobras relembra que, a partir da Operação Lava Jato, a construção de novas refinarias foi inibida. A Petrobras possuía planos para cinco novas unidades, mas apenas uma foi concluída, a refinaria de Pernambuco, inaugurada em 2014. Ele também menciona uma oposição histórica à expansão do refino brasileiro, vinda de empresas estrangeiras que controlam a distribuição no país.
O papel dos importadores de combustíveis e a transição energética
Gabrielli critica o papel dos importadores de combustíveis, autorizados em grande número a partir do governo Temer. Ele aponta que, enquanto as refinarias da Petrobras operavam com capacidade reduzida nos governos Temer e Bolsonaro, abriu-se espaço para os importadores. Mesmo com o aumento da capacidade de refino da Petrobras no governo Lula, a demanda não é totalmente atendida, e os importadores atuam de forma especulativa, importando apenas quando o preço internacional é mais vantajoso.
Sobre a transição energética, o ex-presidente da Petrobras argumenta que não é possível abandonar os combustíveis fósseis abruptamente. Ele cita o exemplo de Cuba, que sofre com a falta de petróleo. A guerra, ao elevar os preços, pode gerar uma contração de demanda no curto prazo, mas, a médio prazo, tende a impulsionar a busca por alternativas energéticas mais sustentáveis.
Hidrogênio verde: uma promessa para o futuro energético
O hidrogênio verde é apresentado como uma solução promissora para a descarbonização da indústria e do setor produtivo, mas sua viabilização depende da criação de um novo mercado. Gabrielli explica que o hidrogênio é essencial para a produção de aço, cimento, transporte pesado e aviação. Sua molécula, de difícil transporte, exige que a produção esteja próxima ao consumo.
A competição com biocombustíveis é um fator importante, pois a partir do hidrogênio é possível produzir metanol, que por sua vez pode gerar gasolina, diesel e querosene de aviação sem a necessidade de petróleo. Embora em alguns locais já seja viável, a previsão é que o hidrogênio verde domine o mercado de combustíveis por volta de 2035. Para que isso ocorra, as decisões e investimentos precisam começar a ser tomados agora, sinalizando a importância de políticas públicas que incentivem essa substituição.





