Avanço do morango egípcio no mercado brasileiro causa apreensão entre produtores de Minas Gerais, que registram queda de preços e vendas.
A produção de morango em Minas Gerais, maior polo do país, enfrenta um desafio crescente com a importação massiva de morango congelado vindo do Egito. Em janeiro de 2026, o volume importado da fruta egípcia apresentou um impressionante aumento de 221% em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo informações do Diário do Comércio. Essa disparada nas importações já impacta diretamente os produtores mineiros, que relatam a redução dos preços de venda e dificuldades em escoar sua produção para as indústrias processadoras.
A situação é agravada pela percepção de concorrência desleal. O morango egípcio chega ao Brasil com um preço médio significativamente inferior ao praticado no mercado interno do Egito, levantando suspeitas de dumping. Enquanto no país africano a fruta é comercializada a cerca de R$ 15 o quilo, para exportação o valor cai para aproximadamente R$ 7, um indicativo preocupante para os produtores locais.
Conforme análise da analista técnica do Sistema Faemg Senar, Mariana Moreira Marotta, o fluxo de morango egípcio no mercado nacional tem ganhado força desde 2017, após um acordo comercial entre o Egito e o Mercosul em 2010. A redução gradual das tarifas de importação, que já chega a 60%, intensificou a entrada do produto a partir de 2022. Em 2025, foram importadas 41 mil toneladas, um volume expressivo que prejudica a economia dos produtores mineiros.
Minas Gerais: O Gigante do Morango Sob Ameaça
Minas Gerais se destaca como o principal produtor de morango da América Latina, respondendo por cerca de 190 mil toneladas em 2023, conforme dados da FAO. A produção, concentrada principalmente no Sul de Minas, é um pilar social e econômico, com 98% dos produtores pertencentes à agricultura familiar, envolvendo aproximadamente 11 mil agricultores e gerando renda e empregos no campo. No entanto, mesmo com essa expressiva produção, o estado tem visto suas importações de morangos e derivados crescerem.
Em 2025, Minas Gerais importou cerca de US$ 2,3 milhões em morangos e derivados, totalizando aproximadamente 2 mil toneladas. Este número representa um aumento de 164% em volume em relação ao ano anterior, quando as compras somaram US$ 658 mil e 743,57 toneladas. A queda nos preços pagos pelas indústrias, que priorizam o produto importado mais barato, impacta diretamente os produtores mineiros, que enfrentam custos de produção crescentes e margens de lucro cada vez menores.
ALMG Aponta Indícios de Dumping e Concorrência Desleal
A gravidade da situação levou a Comissão de Agropecuária e Agroindústria da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) a realizar uma audiência pública. O deputado Dr. Maurício (Novo) ressaltou a discrepância entre o preço de venda do morango no Egito e o valor de exportação para o Brasil, além do custo de frete. Enquanto o transporte do morango de Minas Gerais para Salvador custa cerca de R$ 0,92 por quilo, o frete do morango importado para o Brasil sai por R$ 0,30. Essa diferença, segundo o parlamentar, configura indícios consistentes de concorrência desleal, mesmo sem uma investigação formal antidumping pelo governo brasileiro.
Produtores Relatam Prejuízos e Buscam Alternativas
A realidade para muitos produtores mineiros é de prejuízos significativos. Solange de Oliveira Paiva, com 140 mil pés de morango em Ipuiúna, no Sul de Minas, viu o preço do morango destinado à fabricação de polpa cair de R$ 17 para R$ 8 o quilo em poucos meses. Para o morango de bandeja, o valor despencou de R$ 10 a R$ 13 para R$ 7 por caixa. Iasmin Ribeiro e Silva, de Alfredo de Vasconcelos, Campo das Vertentes, também sentiu o impacto, perdendo o mercado de morango congelado e buscando negociar diretamente com supermercados para driblar os baixos preços da Ceasa.
A situação expõe a vulnerabilidade da agricultura familiar mineira diante de práticas comerciais internacionais que desequilibram o mercado. A busca por soluções que garantam a sustentabilidade da produção de morango em Minas Gerais se torna cada vez mais urgente.





