8 de Março: Mulheres Cansadas de Discursos Vazios no Mundo Corporativo Exigem Ações Reais, Não Apenas Homenagens e Flores
A chegada do Dia Internacional da Mulher em 2026 levanta um questionamento crucial: estamos avançando para além das homenagens superficiais ou a responsabilidade corporativa ainda se resume a gestos simbólicos? A executiva de sustentabilidade e ESG, Rosane Santos, propõe uma reflexão profunda, substituindo as flores por dados concretos e apontando para uma falha de governança estrutural que assombra as organizações brasileiras.
A disparidade de oportunidades e remuneração no mercado de trabalho é alarmante. Dados do IBGE revelam que a taxa de desocupação para homens brancos é de 4,4%, enquanto para mulheres negras atinge 9,3%. A diferença salarial, igualmente preocupante, mostra que mulheres negras ganham aproximadamente um terço do salário de um homem branco. Esses números, segundo Santos, são indicadores claros de uma falha sistêmica.
Mas o cansaço das mulheres vai além das estatísticas frias. Elas estão exaustas de discursos que não se traduzem em mudanças tangíveis, de ter que provar constantemente que pertencem aos espaços corporativos e de adaptar suas posturas e estilos de liderança a modelos que não foram criados para elas. Essa fadiga leva a decisões racionais de se afastar de ambientes que não as acolhem verdadeiramente.
O Risco Duplo da Desistência Feminina
Quando mulheres recusam promoções, abandonam processos seletivos ou encerram suas trajetórias corporativas, o mercado, convenientemente, interpreta isso como falta de ambição ou preparo. Essa narrativa, no entanto, é falsa e conveniente, pois desvia a responsabilidade do sistema para o indivíduo. A ambição, sem o devido suporte estrutural, não se sustenta. Mulheres demonstram menor propensão a buscar ascensão profissional quando a equação de custo-benefício, diante da falta de apoio, deixa de fazer sentido.
O Modelo Organizacional Masculino e a Recusa em se Moldar
O cerne do problema não reside na ausência de talento feminino, mas na persistência de um modelo organizacional construído sobre parâmetros predominantemente masculinos de liderança, presença e performance. Este modelo, nunca questionado, tem sido replicado sem adaptações. Muitas mulheres, com lucidez, recusam-se a moldar suas identidades profissionais para se encaixar em um molde que não lhes serve, o que não deve ser interpretado como fraqueza, mas como inteligência.
ODS 5 e a Urgência de Transformação Estrutural
O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 (ODS 5) da Agenda 2030 estabelece metas claras para a participação feminina em posições de decisão até 2030. Especialistas alertam que o ritmo atual de mudanças é insuficiente para atingir esses objetivos, exigindo transformações estruturais profundas. Com apenas quatro anos restantes para o prazo, o modelo organizacional que necessita de mudança permanece intacto. O cumprimento do ODS 5 não se realiza com painéis temáticos no Dia da Mulher, mas sim com a reformulação dos critérios de liderança pelos conselhos administrativos, a criação de condições para a coexistência de diferentes modelos de excelência e o abandono da prática de medir mulheres por réguas feitas para homens.
Responsabilidade Compartilhada e Prestação de Contas no 8 de Março
Sem dados concretos sobre promoção, diferença salarial e participação em cargos de liderança, o debate sobre igualdade de gênero se esvazia em meras narrativas. A resiliência individual não é capaz de corrigir desigualdades sistêmicas, e a responsabilidade deve ser compartilhada. O 8 de março precisa ser o momento em que os conselhos de administração prestam contas e redesenham o modelo organizacional, em vez de apenas celebrar aquelas que sobreviveram a ele.




