Brasileiros trabalham menos que a média mundial, aponta pesquisa
Em um cenário global onde trabalhadores dedicam em média 42,7 horas semanais a atividades remuneradas, o brasileiro se destaca por trabalhar menos. Pesquisadores analisaram dados de 160 países, revelando que os brasileiros ocupados em empregos formais e informais dedicaram, em média, 40,1 horas semanais ao trabalho entre 2022 e 2023.
A pesquisa, baseada em um amplo banco de dados global organizado pelos economistas Amory Gethin e Emmanuel Saez, com dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Banco Mundial e União Europeia, entre outras fontes, sugere que o desvio brasileiro pode ser explicado por uma preferência cultural por mais lazer.
O levantamento, compilado pelo economista Daniel Duque, do FGV Ibre, indica que o brasileiro trabalha menos do que seria esperado, mesmo quando se consideram fatores como produtividade, estrutura demográfica e carga tributária.
Conforme informação divulgada pela Folhapress, a análise comparativa com outros 86 países, que possuem dados por mais de duas décadas, posiciona o Brasil na 38ª posição em horas trabalhadas. No entanto, quando ajustado pela produtividade e demografia, o país cai para o 60º lugar entre 85 nações, indicando um esforço abaixo do esperado.
O “descer a serra” antes da riqueza
A relação entre produtividade e horas trabalhadas geralmente segue um padrão: à medida que a produtividade aumenta, as horas trabalhadas também sobem, permitindo maior consumo. Contudo, em países com alta produtividade, os trabalhadores tendem a valorizar mais o lazer, reduzindo as horas de trabalho. Essa tendência é conhecida como “descer a serra”.
O estudo de Daniel Duque aponta que os trabalhadores brasileiros optaram por “descer a serra” e trabalhar menos antes de atingir um alto nível de riqueza. Na prática, os brasileiros trabalham, em média, 1 hora e 12 minutos a menos por semana do que o esperado para seu nível de produtividade e perfil demográfico.
Em um ranking que compara o esforço extra dos trabalhadores em relação ao esperado, considerando impostos e transferências, o Brasil também se mantém na parte inferior. Mesmo com a influência do Estado no mercado de trabalho, o brasileiro ainda trabalha 1 hora e 18 minutos a menos do que o esperado.
Lazer valorizado e impacto na renda
Para o economista Samuel Pessôa, colega de Duque no FGV Ibre, essa escolha por menos trabalho e mais lazer é legítima e sinaliza que o lazer no Brasil vale mais do que em outros lugares. Ele sugere que o tempo excessivo em trânsito entre casa e trabalho também pode influenciar a oferta de trabalho.
Independentemente da causa, a menor oferta de trabalho por parte dos brasileiros tem um impacto direto na renda per capita. Duque afirma que, mesmo com o aumento da produtividade por hora, a compensação não será total.
Pessôa exemplifica que a diferença na renda per capita entre o Brasil e países como Coreia e Taiwan se deve não apenas à produtividade, mas também à quantidade de horas trabalhadas. Homens coreanos trabalham significativamente mais do que o esperado, enquanto homens brasileiros trabalham menos. No caso das mulheres, a diferença é ainda maior.
“Se a gente trabalha 25% a menos, mesmo que a produtividade por hora seja a mesma, nosso PIB per capita vai ser 25% menor”, resume Pessôa. Ele ressalta a importância de considerar esses dados ao discutir pautas como a redução da jornada de trabalho, pois a ideia de que os brasileiros já trabalham muito pode não corresponder à realidade média.




