Setor florestal mineiro busca rastreabilidade para expandir exportações à União Europeia, com Minas Gerais na vanguarda com o Selo Verde.
A recente aprovação provisória do acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) acende expectativas no setor de produtos florestais mineiro. A principal demanda europeia por combate ao desmatamento e rastreabilidade da madeira abre novas portas para exportações, mas também exige adaptação e investimento em controle de origem. Mesmo com a suspensão temporária do acordo após pedido de revisão jurídica, as perspectivas permanecem otimistas, indicando um adiamento, e não um cancelamento, da entrada em vigor das novas regras.
A presidente da Associação Mineira da Indústria Florestal (Amif), Adriana Maugeri, destaca a importância de garantir que toda a madeira utilizada na cadeia produtiva, seja para exportação ou consumo interno, tenha origem legal comprovada. Essa exigência europeia, segundo ela, é uma oportunidade para aprimorar a qualidade e a sustentabilidade dos produtos brasileiros, incluindo aqueles usados na geração de energia, como o cavaco de madeira.
Conforme divulgado pelo Diário do Comércio, em 2025, a União Europeia importou US$ 202 milhões em produtos florestais de Minas Gerais, com a celulose representando quase 99% desse valor. O bloco europeu é o segundo maior mercado para o setor, atrás apenas da Ásia, o que reforça a relevância de atender às novas exigências de rastreabilidade e sustentabilidade para manter e ampliar essa participação.
Oportunidades e Desafios do Acordo Mercosul-UE
A possibilidade de um aumento nas exportações para a Europa traz consigo a preocupação com o uso de madeira de origem ilegal. A União Europeia, em consonância com sua Lei Antidesmatamento aprovada em 2023, proíbe a importação de produtos provenientes de áreas desmatadas após 2020. Essa lei, com implementação adiada para o fim de 2026, gera debates e preocupações entre produtores europeus sobre a concorrência desleal, especialmente com produtos sul-americanos.
Adriana Maugeri ressalta a necessidade de um equilíbrio e reciprocidade no acordo, onde as exigências para evitar concorrência desleal possam ser benéficas também para os produtores nacionais. Ela alerta para a importância de monitorar a entrada de produtos europeus que possam competir com itens sensíveis do setor florestal brasileiro, como papéis especiais e embalagens, mas também reconhece o potencial de melhoria na competitividade e tecnologia com a diversificação da oferta europeia.
Minas Gerais Lidera com Rastreabilidade e Produção Florestal
Minas Gerais se destaca no cenário nacional por já possuir um sistema de rastreabilidade de produtos, o Selo Verde. Desenvolvido pelo governo estadual em parceria com a UFMG, o selo atesta que a produção atende às exigências ambientais, posicionando o estado à frente na adaptação às demandas internacionais. Maugeri enfatiza que esses mecanismos de rastreamento, quando aplicados em larga escala, beneficiam especialmente pequenos e médios produtores, certificando a origem dos produtos.
O estado mineiro é líder absoluto na produção de florestas plantadas no Brasil, com 2,3 milhões de hectares, o que representa 24% da base nacional. A maior parte do plantio é de eucaliptos, e a produção de carvão vegetal, destinado majoritariamente à siderurgia, é destaque absoluto, respondendo por 88% da produção nacional. Essa robusta base produtiva em Minas Gerais é um diferencial importante para atender à crescente demanda global por produtos florestais sustentáveis.
Incertezas Jurídicas e o Futuro do Acordo
A recente decisão do Parlamento Europeu de submeter o acordo Mercosul-UE ao Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) para análise de legalidade adiciona uma camada de incerteza. A revisão detalhada das bases jurídicas do tratado pode levar a ajustes e adiar ainda mais sua entrada em vigor, impactando os cronogramas de adaptação do setor. Apesar disso, a expectativa geral é de que o acordo seja, eventualmente, ratificado, abrindo caminho para um novo patamar nas relações comerciais entre os blocos.
A rastreabilidade da madeira, impulsionada pelas exigências europeias, não é apenas uma questão de acesso a mercados, mas também um compromisso com a sustentabilidade e o combate ao desmatamento ilegal. Iniciativas como o Selo Verde em Minas Gerais são exemplos de como o Brasil pode se antecipar a essas demandas, fortalecendo a competitividade e a imagem do seu setor florestal no cenário internacional.
Agricultores Europeus Manifestam Preocupações
Enquanto o setor florestal brasileiro vislumbra oportunidades, agricultores europeus, especialmente da França, Itália e Polônia, expressam receios de concorrência desleal. Eles argumentam que produtos sul-americanos podem não cumprir as mesmas normas ambientais e sanitárias rigorosas da UE, como o uso de agrotóxicos permitidos no bloco. As manifestações recentes, com tratores bloqueando vias próximas ao Parlamento Europeu, evidenciam a tensão em torno da entrada de produtos como carne, soja, mel e arroz do Mercosul.
A Lei Antidesmatamento da UE, que proíbe a importação de produtos de áreas desmatadas após 2020, e a exigência de rastreabilidade por geolocalização são pontos centrais de discórdia. Produtores europeus apontam que essas exigências podem encarecer a produção e afetar pequenos agricultores, gerando um clamor por maior flexibilização ou adiamento na implementação.




