Atraso nas Indicações Presidenciais Gera Ineditismo no Copom
O cenário para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), agendada para os dias 27 e 28 de janeiro, aponta para um evento sem precedentes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve adiar para o próximo ano o envio ao Senado de suas duas próximas indicações para a diretoria do Banco Central (BC). Essa postergação, confirmada por três fontes com conhecimento do assunto à Reuters, deve resultar em um quórum reduzido de apenas sete dos nove membros no colegiado.
Os mandatos de Diogo Guillen, diretor de Política Econômica, e Renato Gomes, diretor de Organização do Sistema Financeiro, ambos nomeados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, expiram ao final de dezembro. Apesar de poderem permanecer nos cargos até a posse de seus substitutos, a expectativa é de que deixem suas posições, conforme indicaram duas das fontes sob condição de anonimato. Com isso, suas responsabilidades seriam temporariamente absorvidas pelos demais membros do Copom, todos indicados pelo atual governo.
Atas do Copom divulgadas pelo BC desde 1998 revelam que nunca houve uma reunião com duas ausências registradas. O Banco Central optou por não comentar o assunto, e o Ministério da Fazenda e o Palácio do Planalto não emitiram resposta imediata sobre a situação. A falta de definição sobre os novos nomes, aliada a um calendário legislativo apertado e a tensões políticas, alimenta a incerteza no mercado.
Mercado Aguarda Sinais sobre Início de Cortes na Selic
O mercado financeiro está atento à possibilidade de o Banco Central iniciar um ciclo de cortes na taxa básica de juros, a Selic, já na reunião de janeiro. Atualmente, a Selic está em 15%, nível mais alto em quase duas décadas, e tem sido mantida inalterada desde junho. Sinais crescentes de uma desaceleração gradual da economia, mesmo sob juros restritivos, intensificam a expectativa por uma flexibilização monetária.
Pesquisas realizadas pela Reuters com economistas indicam que o consenso para a reunião de dezembro é a manutenção da Selic. No entanto, a decisão de janeiro pode ser influenciada pela composição do Copom. A aprovação dos novos diretores pelo Senado é um processo que exige sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e votação em plenário, etapas que podem se estender, especialmente considerando o ambiente político atual.
Calendário Legislativo e Relações Políticas como Obstáculos
O senador Renan Calheiros, presidente da CAE, informou à Reuters que ainda não foi procurado sobre as indicações para o BC. O líder do governo no Senado, Jaques Wagner, também declarou que o Executivo deve estar tratando do tema, mas nada chegou até ele. Soma-se a isso o encerramento do calendário legislativo em 22 de dezembro, o que dificulta a aprovação das indicações ainda neste ano.
O ambiente político na Casa também se mostra inóspito ao governo, especialmente após a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal, que gerou descontentamento no presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Com o retorno dos trabalhos legislativos apenas em 2 de fevereiro, os novos diretores só poderiam participar da segunda reunião de política monetária de 2025, em 17 e 18 de março, caso obtenham o aval dos senadores antes disso.
Possíveis Nomes e Estratégias para o Banco Central
Duas fontes próximas ao governo indicaram que ainda não há uma definição sobre quem serão os próximos diretores do BC. Uma das especulações é que Paulo Picchetti, atual diretor de Assuntos Internacionais, possa assumir a Diretoria de Política Econômica, uma das posições mais cruciais para a tomada de decisões sobre juros. Picchetti é conhecido por sua proximidade com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e por sua expertise em inflação.
Para a Diretoria de Organização do Sistema Financeiro, a mesma fonte sugere que o governo pode optar por indicar um nome de carreira do próprio Banco Central. Entre os cotados estão Angelo Duarte, chefe de gabinete do diretor que deixará o cargo, Carolina Boher, chefe do Departamento de Organização do Sistema Financeiro, e Rogério Lucca, secretário-executivo do banco e apontado como próximo ao presidente do BC, Gabriel Galípolo. A composição do Copom e a definição desses nomes serão cruciais para o rumo da política monetária no próximo ano.




