Banco Central em 2025: A Selic vai cair? Austin Rating analisa os dilemas e aponta caminhos para o início do ciclo de cortes.
O mercado financeiro segue atento aos próximos passos do Banco Central em relação à taxa básica de juros, a Selic. A grande dúvida é quando o ciclo de queda terá início, e as projeções da Austin Rating oferecem um panorama detalhado sobre os desafios que a autoridade monetária enfrenta.
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, explicou em entrevista à BM&C News que a decisão sobre o corte de juros está intrinsecamente ligada à trajetória da inflação, com um componente específico chamando a atenção: o setor de serviços.
Apesar de sinais de desaceleração na economia brasileira, o comportamento dos serviços continua a ser um ponto de atenção para o Banco Central, dificultando um corte mais imediato na Selic. Conforme aponta Agostini, o setor de serviços representa uma fatia expressiva do Produto Interno Bruto (PIB), respondendo por dois terços da economia nacional.
Serviços: Um Obstáculo Persistente para a Queda da Selic
O peso do setor de serviços na dinâmica inflacionária é inegável. Enquanto alguns segmentos, como bens duráveis, reagem de forma mais direta às variações da taxa de juros, a maior parte das despesas em serviços é impulsionada pela renda disponível e pelo consumo à vista, tornando-os menos sensíveis às políticas de crédito.
Agostini ressaltou que o mercado de trabalho brasileiro se mantém “muito forte e resiliente”. Essa robustez sustenta a inflação de serviços em patamares próximos a 6%, mesmo diante da desaceleração econômica geral. O economista descreveu essa característica com a frase: “Serviços têm quase uma imunidade à política monetária”, enfatizando a dificuldade em reduzir essa componente inflacionária apenas com a atuação sobre a taxa de juros.
Para que a inflação de serviços ceda de maneira mais expressiva, seria necessário um enfraquecimento mais acentuado do mercado de trabalho, com um eventual aumento do desemprego. No entanto, este é um efeito que o Banco Central busca evitar ao calibrar o ritmo de seus cortes na Selic, visando um pouso suave da economia.
Janeiro ou Março? Os Cenários para o Início do Corte de Juros
A grande discussão no mercado gira em torno do momento exato em que o Banco Central dará o pontapé inicial no ciclo de redução da Selic. Alex Agostini da Austin Rating delineou dois cenários principais:
Cenário 1: Corte em Janeiro com Redução de 0,25 ponto percentual
Para que um corte ocorra já em janeiro, seria fundamental que o Banco Central preparasse o terreno em dezembro, comunicando de forma clara sua intenção de iniciar a flexibilização monetária já no começo do ano. Este seria um movimento mais cauteloso, pensado para não gerar surpresas no mercado financeiro.
Cenário 2: Corte em Março com Redução de 0,50 ponto percentual (Cenário-Base da Austin Rating)
Na visão de Agostini, o mês de março apresenta um conjunto de dados econômicos mais robusto, oferecendo “condições mais consistentes e de segurança” para o início do ciclo de cortes. Neste período, o BC já teria acesso ao desempenho completo do primeiro trimestre do ano e uma leitura mais clara da atividade econômica, da inflação e do mercado de trabalho.
Caso o corte ocorra em março, o economista da Austin Rating acredita que a redução inicial seja de meio ponto percentual. Essa medida evitaria manter os juros em patamares elevados por um período maior do que o estritamente necessário, buscando otimizar a transmissão da política monetária.
O Ritmo da Queda: Influência Fiscal e Ano Eleitoral
Mesmo com os sinais de desaceleração econômica, Agostini alerta que o Banco Central não pode ignorar o componente fiscal. Em um ano eleitoral, as pressões por aumento de gastos públicos tendem a crescer, o que pode gerar incertezas e impactar a trajetória da inflação e, consequentemente, a decisão sobre os juros.
A “questão fiscal” continua sendo um ponto de preocupação, segundo o economista. A incerteza nesse âmbito pode afetar a curva de juros de longo prazo e, por consequência, influenciar o ritmo do ciclo de redução da Selic. O BC precisará navegar com cuidado nesse cenário.
A Dose Certa: Evitando Erros na Gestão da Selic
Alex Agostini adverte que um atraso excessivo nos cortes, seguido por um movimento mais brusco, como uma redução de 1 ponto percentual de uma vez só, poderia ser interpretado como um reconhecimento de erro por parte do Banco Central. A autoridade monetária buscará, portanto, a gradualidade em suas ações.
O ritmo final dos cortes terá um impacto direto na curva de juros do mercado, que já começou a precificar as expectativas de redução. “Seja 0,25 ou 0,50 em março, isso faz diferença para a curva ao longo do ano”, concluiu Agostini, destacando a importância de cada movimento na condução da política monetária.




