A eterna dança entre o familiar e o novo na escolha do vinho: um guia para descomplicar seu paladar
No universo dos vinhos, a decisão entre revisitar um rótulo conhecido e seguro ou aventurar-se por novas descobertas pode ser um dilema comum. Para além da uva, da ocasião ou do preço, muitos de nós escolhemos o vinho pelo coração, associando-o a memórias e afetos.
Essa busca por um “porto seguro” é natural, especialmente quando a experimentação de algo inédito exige disposição para arriscar e, por vezes, aceitar que nem toda novidade agrada. A jornalista especialista em vinhos, Marcelle Justo, compartilha essa visão, destacando que o gosto pessoal é soberano.
A escolha de um vinho “porto seguro” não se baseia em critérios técnicos, mas sim em uma conexão afetiva. Conforme aponta Marcelle Justo em sua análise, “os vinhos porto seguro não são escolhidos pela técnica, mas por uma certa coerência afetiva com a gente”. Essa preferência por rótulos familiares garante uma experiência agradável e previsível, alinhada às nossas expectativas e paladares consolidados.
O fascínio dos rótulos badalados e a influência social
Paralelamente à busca por conforto, existe um movimento constante de rótulos que ganham destaque e se tornam “moda”, criando um código social de consumo. Esses vinhos, muitas vezes, marcam épocas e despertam o interesse coletivo. Um exemplo foram as icônicas garrafas azuis alemãs, como Liebfraumilch, que popularizaram o vinho no Brasil nos anos 1990.
Posteriormente, os tradicionais vinhos portugueses assumiram esse papel de sinônimo de qualidade e acessibilidade para o consumidor brasileiro. A onda dos vinhos chilenos reservados também teve seu momento de glória, e atualmente, a preferência recai sobre marcas famosas de Mendoza, na Argentina, conhecidas por sua alta concentração de aromas e sabores densos, frequentemente marcados pelo uso da madeira.
Redescobrindo clássicos e explorando novas tendências com sabedoria
Embora a especialista Marcelle Justo admita gostar de muitos desses rótulos, ela ressalta que nem todos a encantam. Ela, por exemplo, não recomenda a garrafa azul, mas elogia os brancos alemães da casta riesling como uma opção refrescante para o verão. A diversidade dos vinhos tintos de Portugal, de norte a sul, também é apontada como encantadora e surpreendente.
Justo cita como exemplo um tinto clarinho, Morgado do Quintão da casta Negra Mole, da safra 2022, do Algarve, que apresentou aromas de fruta fresca e morango. Do Chile, ela tem optado pelo Pinot Noir do Vale de Casablanca, e da Argentina, prefere os vinhos não barricados, que preservam o sabor mais natural da fruta e do seu terroir.
O segredo do equilíbrio: harmonizando o conhecido com o inesperado
A chave para uma experiência enogastronômica satisfatória, segundo a análise de Marcelle Justo, reside no equilíbrio. É fundamental revisitar aqueles vinhos que amamos e nos trazem segurança, mas sem fechar as portas para novas descobertas.
Permitir-se, de vez em quando, uma taça que surpreenda o paladar é o que torna a jornada pelo mundo do vinho verdadeiramente rica e prazerosa. Essa combinação entre o “porto seguro” e a “descoberta do novo” garante que cada garrafa aberta seja uma ocasião especial, moldada tanto pela memória quanto pela curiosidade.





