IA nas Empresas: Crescimento Dispara, Mas Segurança e Governança Viram o Novo Desafio para o Setor Corporativo no Brasil

IA nas Empresas: Crescimento Dispara, Mas Segurança e Governança Viram o Novo Desafio para o Setor Corporativo no Brasil
A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma ferramenta cada vez mais presente no dia a dia das empresas brasileiras. O avanço é notável, especialmente na indústria, onde o uso dessa tecnologia mais que dobrou em apenas dois anos. Essa rápida expansão, contudo, traz consigo desafios cruciais relacionados à segurança e à governança de dados, pontos essenciais para a proteção de ativos estratégicos.
O cenário de adoção acelerada da IA exige que as companhias estejam atentas aos riscos inerentes, como invasões, roubo de credenciais e vazamentos de informações. Empresas que lidam com propriedade intelectual, em particular, precisam de salvaguardas robustas para manter seus ativos seguros no ambiente digital. A falta de políticas claras sobre como utilizar a inteligência artificial pode expor o know-how corporativo a danos significativos.
Conforme dados da Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec Semestral) 2024, realizada pelo IBGE em parceria com a ABDI e a UFRJ, o uso de IA na indústria brasileira saltou de 16,9% em 2022 para 41,9% no ano da pesquisa. Esse crescimento expressivo evidencia a necessidade urgente de discussões sobre governança de dados, essencial para mitigar riscos e garantir a segurança das informações. A inteligência artificial, apesar de seus benefícios, pode se tornar um vetor de perigo se não houver controle adequado.
Governança de Dados: A Chave para a Segurança na Era da IA
A advogada e especialista em propriedade intelectual, Elisângela Menezes, destaca que a ausência de diretrizes claras para o uso da IA pode acarretar riscos substanciais ao conhecimento e segredos de uma empresa. “Plataformas com modelos generativos permitem ganhos significativos de produtividade. No entanto, muitas dessas ferramentas operam por meio de interação direta com dados inseridos pelos usuários, o que pode representar riscos quando informações sensíveis são compartilhadas sem controle adequado”, explica Menezes.
O perigo se intensifica quando colaboradores inserem documentos internos, códigos proprietários ou estratégias de negócio em sistemas de IA. Existe a possibilidade de que esses dados sejam armazenados, usados para treinar modelos ou expostos indiretamente em outras respostas do sistema. “Esse cenário coloca em evidência a importância da governança de dados em ferramentas de IA, especialmente em empresas que dependem de ativos intangíveis para gerar valor competitivo”, ressalta a especialista.
O compartilhamento inadvertido de dados confidenciais em plataformas de IA pode transferir conhecimento sensível para ambientes fora do controle da empresa. Esse risco é amplificado pelo fato de muitas plataformas de IA operarem em infraestrutura global, com políticas de uso e armazenamento definidas por terceiros. Empresas que adotam o uso responsável conseguem aproveitar os benefícios da inteligência artificial sem comprometer seus ativos estratégicos.
Gigantes e Pequenas Empresas Adotam IA com Foco na Responsabilidade
Grandes corporações e empresas de menor porte já estão estruturando o uso responsável da IA. Lindamaria Lima, responsável por Data Privacy – Legal & Compliance da CNH para América Latina, afirma que a multinacional possui uma governança de dados robusta, com forte estrutura em proteção e cibersegurança, incluindo uma área especializada em governança de inteligência artificial. “Só utilizamos ferramentas homologadas, que passaram pela triagem de compliance e aprovações do setor de cibersegurança”, conta.
Mesmo as ferramentas aprovadas possuem limites de uso. “Elas não podem ser utilizadas como repositório de documentos, mas sim como um auxílio na geração de informações. Temos que lembrar e reforçar, sempre, que a IA é um apoio”, explica Lima, enfatizando a importância de não inserir dados sensíveis. A recomendação é clara: evitar plataformas externas à gerência da organização.
A CNH incentiva o uso de sua própria infraestrutura de IA para resumos de reuniões com terceiros, por exemplo, um hábito já consolidado internamente e até mesmo entre seus concessionários. Essa prática permite o controle assertivo da entrada e saída de dados da multinacional, presente em 170 países. “A nossa intenção não é ignorar as mudanças, mas tentar incorporar o máximo de tecnologias possível em nossos processos, sempre de forma responsável, respeitando todos os dados, principalmente dos nossos clientes”, pontua.
No mercado imobiliário mineiro, a CéuLar Netimóveis também desenvolve estratégias para uma boa governança de inteligência artificial. A IA é usada principalmente no atendimento inicial aos consumidores, qualificando a demanda antes de direcionar para o atendimento humano. “Isso trouxe uma eficiência muito grande para os nossos processos. A gente já sabe o que o cliente quer ao atendê-lo, mas essa automatização só é possível por meio dos serviços de uma empresa com a qual temos contrato”, afirma Adriana Magalhães, diretora de estratégias da marca.
A CéuLar evita plataformas gratuitas, priorizando o uso respaldado em segurança. “Nada é compartilhado em ferramentas pelas quais a gente não paga pelo acesso”, revela Magalhães. Ela reconhece que o tema ainda exige aprendizado, especialmente porque as plataformas de IA estão acessíveis nos computadores de toda a empresa, e um uso indevido pode gerar problemas gravíssimos em termos de sigilo e quebra de informações estratégicas.
Especialistas Alertam: Cultura e Homologação São Essenciais
Victor Salles, especialista em inteligência artificial e à frente da Proteus Academy, ressalta que a gestão corporativa das IAs não deve ser homogênea. “Primeiro elas precisam entender quais são seus tamanhos e o nível de rigidez de governança de que precisam”, explica. Uma multinacional, por exemplo, terá demandas e fluxos distintos de uma empresa regional.
Salles também recomenda cautela com ferramentas gratuitas. “Na internet, se você não está pagando pelo produto, é porque o produto é você, ou seja, alguém está pagando por aquele servidor e pela tecnologia. Portanto, esse alguém está fazendo um esforço para obter seus dados”, alerta. Ele aconselha ainda a evitar ferramentas muito novas, preferindo aquelas de provedores conhecidos, como o Google, que oferecem maior retaguarda e confiabilidade.
A homologação de ferramentas de IA é vista como o melhor caminho para o ambiente corporativo. “Ela é o teste de qualidade, o crivo que o time de governança faz sobre qualquer nova ferramenta disponível”, conta Salles. Ele enfatiza a importância de as empresas desenvolverem a cultura do letramento em IA para prevenir o uso inadequado.
“As ferramentas são indiscutivelmente maravilhosas, mas se manuseadas por pessoas não treinadas, que fogem dos parâmetros definidos na governança, podem resultar em erros capazes de colocar a credibilidade e a segurança da empresa em xeque”, adverte o especialista. O treinamento e a informação são fundamentais para lidar com este universo desafiador, especialmente considerando que a IA usada por uma empresa pode ter sido desenvolvida por concorrentes, tornando o vazamento de dados um risco ainda maior.