Guerra no Oriente Médio e China: Como o petróleo impacta bens industriais e a inflação do IPCA no Brasil?

A pressão do petróleo em bens industriais pode reverter a influência desinflacionária sobre o IPCA, segundo análise de economistas.

O conflito no Oriente Médio, ao afetar o fornecimento global de petróleo e outras matérias-primas, está mudando o comportamento dos preços de bens industriais no Brasil. Esse grupo, que antes era visto como um freio para a inflação, começa a apresentar tendências de alta, o que pode impactar diretamente o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Até o momento, os bens industriais ainda estão longe de serem os principais vilões do IPCA. No entanto, a taxa de alta observada em abril, de 0,61%, quase dobrou em relação a março, indicando uma mudança de rota. Essa tendência, segundo o mercado, deve persistir no segundo semestre do ano.

Embora o aumento de 2,41% em 12 meses para bens industriais ainda seja inferior aos 4,39% do IPCA cheio, as projeções indicam que essa diferença diminuirá. Economistas ouvidos pelo Broadcast preveem que a alta desse segmento possa chegar perto de 4% ao final do ano, deixando de ser um grande aliado na queda da inflação, conforme divulgado pelo Estadão Conteúdo.

Choque de oferta global e a mudança na inflação de bens industriais

O choque de oferta global, intensificado pela guerra no Oriente Médio, está elevando os custos industriais e logísticos. Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, destaca que o Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) já apontou uma reversão no quadro benigno dos bens industriais. Um núcleo complementar do atacado, que exclui itens como gás, minério de ferro e alimentos, subiu para 2,5% em abril, a maior taxa para o mês desde pelo menos 2010.

Esse aumento de custos no atacado, segundo Angelo, em breve chegará ao consumidor. A disparada no preço de embalagens plásticas, por exemplo, que passou de 33% para 38% de março a abril, é um indicativo claro da pressão vinda do choque da guerra, e não do câmbio. A economista estima que os bens industriais fechem o ano perto de 3,2% no IPCA, revertendo a expectativa inicial de que seriam um vetor de desinflação.

Consumo resiliente e a influência do câmbio moderador

Roberto Secemski, economista-chefe para Brasil do Barclays, observa que itens de higiene pessoal foram responsáveis por dois terços da alta dos bens industriais em abril. A combinação de preços mais caros de matérias-primas e fretes, somada a uma certa resiliência do consumo devido a medidas de estímulo como a isenção do Imposto de Renda, pode sustentar a tendência altista dos produtos industrializados. Contudo, o bom desempenho do real frente ao dólar ajuda a moderar o ritmo desses repasses.

Secemski também aponta para uma pressão maior do que o esperado em itens como eletroeletrônicos e celulares no início do ano. Embora ainda apresentem variações negativas em 12 meses, esses produtos deixaram as mínimas, com alguns registrando aumentos mensais relevantes, possivelmente devido ao aumento do imposto de importação. O Barclays elevou sua previsão de avanço anual para itens industriais no IPCA de 2,9% para 3,8%.

O papel da economia chinesa na inflação global e brasileira

João Fernandes, economista da gestora Quantitas, aponta que, além da alta do petróleo, o comportamento da economia chinesa é outro vetor importante para a aceleração recente nos bens industriais. A China, que vinha de uma desaceleração interna e inflação baixa, o que tornava seus produtos exportados mais baratos, agora enfrenta uma inflação mais elevada. A dependência chinesa da importação de petróleo do Golfo eleva os custos de produção, resultando em bens exportados mais caros que chegam aos mercados emergentes, como o Brasil.

Fernandes alerta que, embora os bens industriais subjacentes (que excluem itens voláteis) mantenham um acumulado em 12 meses controlado em 2,17% até abril, outras métricas indicam preocupação. A média móvel trimestral anualizada e dessazonalizada desse grupo saltou de 1,40% no final de 2025 para 3,64% no IPCA de abril. Há ainda a expectativa de que a inflação de vestuário comece a sentir o efeito altista do preço do algodão, intensificado pela alta do petróleo que encarece o poliéster, seu substituto, conforme divulgado pelo Estadão Conteúdo.

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