El Niño: Empresas do Ibovespa projetam perdas bilionárias, mas varejo e bebidas buscam oportunidades com o calor

El Niño: Empresas do Ibovespa projetam perdas bilionárias, mas varejo e bebidas buscam oportunidades com o calor

O fenômeno El Niño, que aquece as águas do Oceano Pacífico e eleva as temperaturas globais desde junho, já começa a mostrar seus efeitos nas projeções de empresas da Bolsa brasileira. Enquanto setores como o agronegócio e a logística preveem prejuízos significativos, outros, como o varejo e o de bebidas, vislumbram um cenário de aumento nas vendas e faturamento.

O levantamento, realizado pela Folha com base em teleconferências de resultados do segundo trimestre, aponta para riscos de crédito, quebras de safra, aumento de sinistralidades e gastos adicionais com logística para diversas companhias. No entanto, o calor intenso também pode ser um motor de vendas para segmentos específicos, impulsionando o consumo e gerando oportunidades.

A análise das empresas listadas no Ibovespa revela um panorama de contrastes, onde o mesmo fenômeno climático pode gerar impactos diametralmente opostos, dependendo do setor de atuação. A seguir, detalhamos como o El Niño está afetando e poderá afetar diferentes segmentos da economia brasileira.

Varejo e Bebidas: O Calor como Aliado nas Vendas

Para empresas como Magazine Luiza e Assaí, o aumento das temperaturas representa uma oportunidade clara de impulsionar as vendas. A demanda por itens de climatização, como ar-condicionado e ventiladores, tende a disparar, assim como a venda de bebidas. Fabrício Garcia, vice-presidente de operações da Magazine Luiza, destacou em teleconferência que a linha de refrigeração é a que mais vende na companhia, e o calor eleva significativamente essa categoria.

A indústria de climatização, segundo a Abrava, projeta um faturamento de R$ 55,62 bilhões para este ano, um aumento de 10% em relação a 2025. No setor de bebidas, a Ambev já utilizou a experiência do El Niño de 2024 para moldar suas estratégias. Carlos Lisboa, CEO da empresa, afirmou que temperaturas mais altas influenciam positivamente a demanda, e a receita líquida de cerveja no Brasil já apresentou alta de 3,2% em 2024, com projeção de R$ 43,4 bilhões para 2026.

Agronegócio e Logística: Principais Vítimas do El Niño

Em contrapartida, o agronegócio é apontado como o setor mais penalizado pelo El Niño. A seca esperada para o Centro-Oeste pode causar quebras de safra significativas, impactando diretamente empresas como a SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de soja, milho e algodão. Segundo a UBS BB, a produtividade da soja pode ter uma queda média de 7% em anos com o fenômeno, e o algodão de segunda safra, cerca de 10%.

A seca também afeta as regiões pecuárias, como no caso da Minerva, atrasando a recomposição de rebanhos e elevando custos com alimentação. Aline Cardoso, líder de pesquisa e estratégia de ações do Santander, explica que a necessidade de complementar a alimentação do gado com ração, mais cara que o pasto, pressiona as margens dos produtores, que repassam esses custos aos frigoríficos.

O setor de transportes, especialmente ferrovias e hidrovias, também sofre com a quebra de safra, pois há menos volume para ser transportado. A Rumo, por exemplo, pode ser afetada pela queda no volume de grãos transportados. O setor financeiro, que concede crédito ao agro, também é impactado, com potencial aumento da inadimplência.

Seguros e Energia Elétrica: Incertezas e Planos de Contingência

Para as seguradoras, a imprevisibilidade do El Niño dificulta a projeção da sinistralidade. O Banco do Brasil, forte no seguro do agronegócio, enviou profissionais para monitorar lavouras em tempo real e incentiva produtores a terem mais de um contrato de seguro. A instituição também levou o El Niño em conta na sua Provisão para Devedores Duvidosos (PDD).

No setor de energia elétrica, o cenário é misto. Empresas como Copel e Auren veem oportunidades com o aumento da demanda e reservatórios mais cheios no Sul. Por outro lado, Energisa, Cemig e Axia já se preparam para riscos de danos em redes elétricas, apagões e volatilidade nos preços, com planos de manutenção preventiva e poda de árvores. A região de atuação de cada empresa define o impacto, com o Sul se beneficiando de chuvas e o Nordeste e Norte enfrentando secas.

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