Dólar em Queda: Petróleo Dispara e Impulsiona Real, Apesar de Tensão Geopolítica Global

Real desafia tendência global e se fortalece impulsionado pelo petróleo, superando aversão ao risco internacional.
Na primeira sessão de junho, o real brasileiro exibiu uma performance notável, registrando ganhos frente ao dólar. Essa valorização ocorreu em um contexto global de apreensão, marcado pelo aumento das tensões no Oriente Médio e consequente fortalecimento da moeda americana.
Apesar da onda de aversão ao risco que geralmente favorece o dólar, o real conseguiu se descolar dessa tendência. A alta expressiva nos preços do petróleo foi o principal motor por trás dessa movimentação, beneficiando diretamente a economia brasileira, que é exportadora líquida do commodity.
O dólar à vista encerrou o pregão em baixa de 0,40%, cotado a R$ 5,0227, após ter registrado uma alta de 1,82% ao longo do mês de maio. No acumulado do ano, a moeda norte-americana acumula perdas de 8,50% em relação ao real, conforme informações divulgadas pelo Diário do Comércio.
Escalada no Oriente Médio e o Impacto no Mercado de Petróleo
O cenário geopolítico se adensou com o anúncio do Irã sobre a suspensão de conversas com os Estados Unidos. Essa decisão veio em protesto aos ataques de Israel a bases do grupo xiita Hezbollah no Líbano, elevando o nível de alerta na região. Autoridades iranianas chegaram a emitir comunicados pedindo que moradores do norte de Israel e de assentamentos militares deixassem suas áreas.
Essa retórica mais agressiva de Teerã provocou um aumento expressivo nos preços do petróleo, especialmente durante o período da manhã. As cotações do barril de Brent, por exemplo, tocaram os US$ 97, encerrando o dia com alta de 4,24%, a US$ 94,98, após declarações de Donald Trump que trouxeram um certo alívio temporário ao mercado.
A Dualidade de Fatores na Formação do Câmbio
Alexandre Viotto, head de banking da EQI Investimentos, explica que o mercado de câmbio, em momentos de escalada geopolítica, é influenciado por duas forças opostas. De um lado, o aumento da aversão ao risco e da volatilidade tende a prejudicar moedas de economias emergentes.
Por outro lado, a valorização do petróleo atua como um fator positivo para países exportadores como o Brasil. “Foi um pouco o que vimos hoje”, comentou Viotto, destacando a dinâmica complexa que moldou a cotação do dólar frente ao real.
Real se Destaca em Meio a Moedas Emergentes
Apesar de o real ter sido uma das poucas moedas emergentes a registrar ganhos no dia, o peso colombiano foi o grande destaque, com uma valorização superior a 2,5% ante o dólar. Esse avanço na Colômbia foi impulsionado pelo resultado do primeiro turno das eleições presidenciais no país, com a performance surpreendente de um candidato de direita.
Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank, ressalta que a apreciação do real, destoando de outras moedas emergentes, deve-se ao fato de o Brasil ser um exportador líquido de petróleo. Adicionalmente, a piora nas projeções de inflação, conforme o Boletim Focus, sugere a manutenção de juros elevados no Brasil, o que se torna um atrativo para o capital estrangeiro.
Perspectivas para o Dólar e a Economia Brasileira
A perspectiva de o petróleo permanecer acima dos US$ 90, diante da persistência do conflito no Oriente Médio, pode estimular apostas em um aumento de juros nos Estados Unidos, o que, por sua vez, impactaria negativamente o apetite por moedas emergentes. No entanto, o real ainda encontra proteção na melhora dos termos de troca e na taxa de juros local, que se mantém elevada.
Viotto aponta que a tendência para o dólar é de se manter próximo a R$ 5,00, mas com possibilidade de buscar os R$ 5,20. Ele avalia que há mais chances de o dólar subir do que ceder, especialmente se o Federal Reserve adotar um discurso mais restritivo em relação à política monetária. Questões políticas internas, como a perda de fôlego de algumas candidaturas, já parecem ter sido precificadas pelo mercado.