Custo de Vida Alto Ignora Dizeres do Governo sobre Inflação Controlada, Diz Especialista

Custo de vida alto em 2024: a realidade que contrasta com o discurso de inflação sob controle pelo governo
A sensação de que “tudo está muito caro” ecoa em supermercados, feiras e farmácias por todo o país. Essa percepção popular diverge dos dados oficiais que apontam para uma inflação controlada, criando um paradoxo que afeta diretamente o orçamento familiar.
Mesmo com a melhora em indicadores como o desemprego e a renda, o poder de compra da população não acompanha o ritmo necessário para manter o padrão de vida. A distância entre os números macroeconômicos e a realidade sentida no dia a dia gera frustração.
A inflação oficial, medida pelo IPCA, tem apresentado números que, tecnicamente, indicam controle. No entanto, o custo de vida, que representa o quanto é necessário gastar para manter um determinado padrão de consumo, avança de forma mais acentuada. Conforme informações divulgadas pelo Estadão Conteúdo, essa discrepância tem enfraquecido o discurso governamental sobre a inflação estar sob controle.
Inflação oficial versus percepção popular: entendendo a diferença
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou 4,39% em 12 meses até abril deste ano, segundo o IBGE. Embora este valor seja um pouco superior aos meses anteriores, ele se mantém em um patamar considerado razoável pela política monetária, que visa evitar uma escalada generalizada de preços. Contudo, essa métrica técnica não reflete a experiência cotidiana.
Rodrigo Simões, diretor do Núcleo de Estudos da Faculdade de Comércio de São Paulo (FAC-SP), explica que a leitura popular faz sentido porque a inflação mede a velocidade do aumento dos preços, e não o seu nível. “Todo mundo incorpora o aumento de um preço na mão de obra, no aluguel, na logística, e muitas vezes isso não volta ao patamar anterior”, afirma.
Ou seja, mesmo que a taxa de inflação desacelere, os preços que já subiram permanecem elevados. Essa permanência de preços altos impacta diretamente o custo de vida, mesmo que a inflação oficial mostre queda na sua velocidade de aumento.
A cesta básica como termômetro do custo de vida
Um levantamento realizado a pedido do Broadcast, sistema de notícias do Grupo Estado, aponta que, entre 2011 e 2025, o valor da cesta básica acumulou uma variação de 205,1%, saltando de R$ 277,27 para R$ 845,95. Durante o mesmo período, o salário mínimo teve um aumento de 178,5%, passando de R$ 545,00 para R$ 1.518,00.
Essa comparação revela que a cesta básica consumiu uma proporção maior do salário mínimo ao longo dos anos. Em 2011, ela representava 50,88% do mínimo, e em 2025, esse percentual subiu para 55,73%. “Ficou mais caro comer, e as pessoas deixaram de consumir outras coisas”, observa Simões, destacando o impacto direto no orçamento.
Em abril, a Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, parceria entre Dieese e Conab, mostrou variações regionais significativas. Em Aracaju (SE), a cesta custou R$ 619,32, enquanto em São Paulo o valor chegou a R$ 906,14. Mesmo com essa diferença, a alta de preços foi sentida em ambas as cidades, com aumentos de 3,49% e 2,51%, respectivamente, de março para abril.
Salário mínimo ideal versus realidade: a conta não fecha
Considerando o valor da cesta básica em São Paulo, a mais cara do país, e a previsão constitucional de cobrir despesas essenciais (moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência), o Dieese e a Conab estimam que o salário mínimo deveria ser de R$ 7.612,49. Este valor contrasta drasticamente com o salário mínimo vigente.
Na capital paulista, em abril, o consumidor precisou desembolsar o equivalente a 60,43% do salário mínimo de R$ 1.621,00 para adquirir a cesta básica. Essa realidade evidencia a pressão constante sobre o orçamento familiar, onde uma parte cada vez maior da renda é destinada à subsistência básica.
A discrepância entre os dados macroeconômicos e a percepção do cidadão sobre o custo de vida mina a confiança na política econômica adotada. Embora o governo celebre a queda do desemprego e a valorização da renda, a sensação de aperto no orçamento impede que esses avanços se traduzam em maior aprovação popular.
O impacto no cotidiano: menos poder de compra, mais preocupação
A dificuldade em recompor o poder de compra, mesmo com o aumento da renda, é um dos principais fatores que explicam a baixa aprovação do governo, apesar dos números macroeconômicos positivos. A sensação de aperto no orçamento é um reflexo direto do custo de vida elevado.
Simões ressalta que, muitas vezes, o custo de vida avança mais rápido do que a renda, gerando uma “diferença negativa”. Isso significa que, proporcionalmente, os gastos essenciais crescem mais do que o salário, forçando os consumidores a fazer escolhas difíceis e, em muitos casos, a reduzir o consumo de outros bens e serviços.
A longa distância entre o que os indicadores mostram e o custo efetivo de manter o padrão de consumo é o cerne da questão. Enquanto os especialistas debatem a precisão técnica dos índices de inflação, a população continua a sentir no bolso o impacto de um custo de vida que parece cada vez mais insustentável.