Itamaraty busca freneticamente fertilizantes no mundo para evitar colapso na safra brasileira de 2026/2027

Itamaraty se une a setor produtivo em corrida global por fertilizantes essenciais

A agricultura brasileira, vital para a economia nacional e o abastecimento mundial de alimentos, enfrenta um desafio crítico. A iminente escassez de fertilizantes, especialmente os fosfatados e seus componentes básicos como o enxofre e o ácido sulfúrico, mobilizou o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) em uma busca emergencial por fornecedores internacionais.

A urgência se deve à necessidade de garantir o suprimento para o plantio da safra 2026/2027, que se inicia em agosto. Sem esses insumos, a produtividade de culturas essenciais como soja, milho, algodão, café e cana-de-açúcar pode sofrer quedas drásticas, impactando toda a cadeia produtiva e o mercado global.

A ação diplomática foi acionada após alertas da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) e do Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert). Conforme informações obtidas pela Folha, o Itamaraty enviou um pedido urgente a dezenas de representações diplomáticas brasileiras, solicitando informações e apoio para sensibilizar governos estrangeiros a autorizar exportações emergenciais.

Urgência diplomática para garantir insumos vitais

O senso de urgência é palpável, com o Itamaraty estabelecendo um prazo apertado para o retorno das embaixadas e consulados, demonstrando a gravidade da situação. O Brasil, um gigante na produção de alimentos, é também o maior importador de fertilizantes do mundo, com uma dependência externa significativa, especialmente para fertilizantes fosfatados, dos quais mais de dois terços do consumo nacional vêm do exterior.

A preocupação maior recai sobre o enxofre, matéria-prima fundamental para a produção de ácido sulfúrico, que por sua vez é essencial na fabricação de fertilizantes fosfatados. O país precisa obter, de forma emergencial, cerca de 250 mil toneladas adicionais de enxofre por mês nos próximos meses para evitar a paralisação da produção nacional de fertilizantes.

A dependência brasileira de enxofre é quase total, com importações que somaram 2,3 milhões de toneladas em 2025. Relatos ao Itamaraty indicam que a escassez já está afetando unidades industriais que processam fosfatos, levando à suspensão de suas operações. Países como Estados Unidos, Canadá, Cazaquistão e Turcomenistão, além de Alemanha, Colômbia, Espanha e outros, foram apontados como possíveis fornecedores.

Disparada de preços e busca por ácido sulfúrico e fertilizantes prontos

O cenário atual é agravado pela disparada histórica nos preços das matérias-primas. Dados reunidos pelo Itamaraty revelam um aumento de 823% no preço do enxofre entre janeiro de 2024 e abril de 2026, e de 305% no ácido sulfúrico no mesmo período. Essa inflação dificulta ainda mais o acesso aos insumos necessários.

Em paralelo à busca por enxofre, o setor produtivo também solicita apoio para o fornecimento emergencial de 60 mil toneladas mensais de ácido sulfúrico. Países como Bélgica, Bulgária, Espanha, Finlândia, Chile e Peru foram identificados como potenciais fornecedores deste insumo crucial.

A terceira prioridade na lista de urgências são os fertilizantes fosfatados prontos, com o agro buscando localizar fornecedores capazes de entregar 1,54 milhão de toneladas adicionais. Alemanha, Egito, Espanha, Índia, Israel, Omã, Países Baixos e Tunísia são vistos como nações com potencial para suprir essa demanda.

Complexidade geopolítica e segurança alimentar

A crise de fertilizantes transcende a esfera econômica, tornando-se uma questão de segurança industrial e alimentar. Os Estados Unidos, por exemplo, passaram a considerar fosfato e potássio como minerais críticos em sua estratégia industrial e de segurança alimentar. Essa mudança reflete a percepção global sobre a importância estratégica desses insumos.

Por trás das dificuldades de acesso, estão fatores geopolíticos complexos, como o fechamento do estreito de Hormuz e as restrições de exportação de ureia pela China. Cerca de 15% das importações brasileiras de fertilizantes vêm de regiões do Oriente Médio afetadas por conflitos, com Irã, Qatar, Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos respondendo por uma parcela significativa das importações de ureia.

Itamaraty prioriza o tema e mantém diálogo com o setor

O Itamaraty confirmou que o tema dos fertilizantes é tratado com alta prioridade em sua agenda diplomática e em contatos com o setor privado. O ministro Mauro Vieira incluiu a questão em suas recentes visitas ao Uzbequistão, Cazaquistão e China, buscando sensibilizar autoridades de alto nível.

A pasta ministerial informou que as áreas responsáveis por comércio e as embaixadas brasileiras estão ativamente engajadas no mapeamento de oportunidades no mercado global de fertilizantes. O Itamaraty também mantém contato frequente com entidades como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), atuando como facilitador para identificar e atender às demandas do setor privado em um esforço conjunto para garantir a segurança alimentar do país.

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