Brasil, Argentina e Paraguai unem forças para turbinar exportação de etanol e biodiesel para a Europa e driblar barreiras comerciais

Brasil articula aliança estratégica com Argentina e Paraguai para expandir exportação de biocombustíveis para a Europa.

Em um movimento diplomático e econômico inédito, o Brasil busca formar uma aliança com Argentina e Paraguai com o objetivo de superar a resistência histórica da União Europeia à importação de biocombustíveis, como etanol e o SAF (combustível sustentável de aviação), provenientes da América Latina. A iniciativa visa abrir mercados e impulsionar as vendas desses produtos em um continente que busca alternativas aos combustíveis fósseis.

A articulação ocorre em um momento delicado, com a União Europeia discutindo novas regulamentações que podem dificultar o acesso dos biocombustíveis sul-americanos. A Europa, que tem buscado diversificar suas fontes de energia, especialmente após conflitos globais que elevaram os preços do petróleo e do gás, tem focado mais em eletrificação e na importação de minerais críticos para a transição energética.

A proposta de união entre os países sul-americanos é vista como uma estratégia para apresentar um discurso coeso e fortalecer o poder de negociação. Conforme informações divulgadas pela Folha de S. Paulo, o ex-deputado federal Jerônimo Goergen, presidente da Associação Brasileira de Biocombustíveis (Aprobio), destaca a necessidade de alinhar as diferentes matérias-primas utilizadas na produção de biocombustíveis em cada país. Enquanto a Argentina baseia sua produção na soja, o Brasil utiliza milho e cana-de-açúcar, e o Paraguai também possui sua própria base produtiva.

Europa busca diversificação, mas prioriza minerais e eletrificação

A União Europeia tem intensificado seus esforços para diversificar o fornecimento de combustíveis e reduzir a dependência de fontes fósseis, especialmente após a guerra na Ucrânia. Entre 2020 e 2024, a participação de energias renováveis no sistema elétrico do bloco saltou de 35% para 48%, com a meta de atingir 70% até 2050. No entanto, diplomatas europeus e brasileiros indicam que, no momento, o interesse da UE na América Latina está mais voltado para minerais críticos e terras raras, essenciais para a indústria de baterias e painéis solares.

O foco europeu em minerais já resultou em protocolos de intenção com Chile e Argentina, e busca um acordo similar com o Brasil. Essa preferência por minerais em detrimento de biocombustíveis representa um desafio para a aliança sul-americana, que precisa demonstrar a sustentabilidade e a competitividade do etanol e biodiesel produzidos na região.

Resistência europeia e o futuro dos biocombustíveis

Uma resolução em tramitação no Parlamento Europeu propõe que, a partir de 2030, biocombustíveis derivados de óleo de palma e soja não sejam considerados para fins de descarbonização, classificando-os como não sustentáveis. Embora a medida não afete diretamente as importações, agentes do setor temem que ela possa favorecer ainda mais a eletrificação em detrimento de alternativas como o etanol e o biodiesel. Há também a possibilidade de extensão dessas restrições para o milho e a cana-de-açúcar.

Atualmente, a Europa não é um grande mercado para o etanol brasileiro. Em 2025, o Brasil exportou 1,6 bilhão de litros de etanol, com apenas cerca de 200 milhões destinados ao continente europeu. O acordo UE-Mercosul prevê cotas de mais de 800 milhões de litros para o etanol sul-americano, o que representa uma oportunidade de expansão, caso as barreiras regulatórias sejam superadas.

Biodiesel e o potencial de descarbonização para a Europa

O setor de biodiesel também vê na aliança uma chance de crescimento. Atualmente, o Brasil exporta apenas 1% de sua produção de biodiesel. Erasmo Carlos Battistella, presidente da Be8, destaca que embarques mais regulares para a Europa poderiam beneficiar o continente com uma solução imediata de descarbonização e reduzir a dependência do diesel fóssil em tempos de crise. Sua empresa já opera uma usina na Suíça e possui um escritório comercial na Itália.

Produtores brasileiros encomendaram um estudo da USP para contrapor os argumentos europeus, que associam o uso de lavouras para biocombustíveis à insegurança alimentar e ao desmatamento. O estudo busca demonstrar que as condições climáticas na América Latina permitem múltiplos ciclos de safra por ano, utilizando áreas já plantadas e, portanto, sem necessidade de desmatamento adicional. Esse argumento visa reforçar a sustentabilidade e a eficiência da produção de biocombustíveis na região.

SAF: um mercado emergente com desafios

A Europa demonstra maior abertura aos biocombustíveis de aviação, como o SAF. Contudo, a maior parte do combustível sustentável utilizado atualmente por aeronaves europeias é produzida a partir da reutilização de óleo de cozinha, e não diretamente de vegetais. As projeções mais otimistas indicam que a Europa só deve atingir a marca de 10% de uso de SAF na aviação em 2050, evidenciando que este ainda é um mercado em desenvolvimento, com potencial, mas também com desafios a serem superados pela produção sul-americana.

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