Peru Eleições 2024: Keiko Fujimori vs. Roberto Sánchez em Disputa Acirrada Marcada por Crise Política e Legado do Fujimorismo

Peru elege neste domingo seu nono presidente em dez anos de crise política, com cenário de incerteza entre Keiko Fujimori e Roberto Sánchez.
Os eleitores peruanos vão às urnas neste domingo, 7, para escolher o nono presidente em apenas dez anos, em um reflexo da profunda crise política que assola o país. Desde 2016, o Peru viu dois presidentes renunciarem e seis serem destituídos pelo Congresso, demonstrando a fragilidade das instituições e a força do parlamento.
A disputa final se concentra entre a direitista Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, e o esquerdista Roberto Sánchez Palomino, aliado do ex-presidente Pedro Castillo. A polarização entre esses dois nomes promete um resultado imprevisível, com analistas apontando para um cenário de grande incerteza.
Conforme informação divulgada pela Agência Brasil, a eleição deste domingo é crucial para a geopolítica da América do Sul, em um momento em que a região tem mostrado um alinhamento crescente com os Estados Unidos. O resultado pode influenciar o equilíbrio de forças continental.
A polarização: Fujimori e o legado de seu pai contra o anti-fujimorismo
A candidatura de Keiko Fujimori evoca o passado recente do Peru, carregando tanto os votos de apoio ao legado de seu pai, Alberto Fujimori, quanto a forte rejeição a ele. Alberto Fujimori, que governou entre 1990 e 2000, foi condenado por violações de direitos humanos, incluindo a esterilização forçada de mulheres indígenas.
Por outro lado, Roberto Sánchez busca capitalizar sobre o sentimento anti-Fujimori, que o antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Unifesp, considera ser uma força política majoritária no Peru. Sánchez, que foi ministro do ex-presidente Pedro Castillo, promete reformas constitucionais para superar a Carta Magna herdada do fujimorismo e defende avanços em direitos sociais.
Schavelzon destaca que Sánchez representa o legado do anti-fujimorismo e também o voto do interior do país, áreas cujas intenções de voto são mais difíceis de captar em pesquisas. Ele também herdou o simbolismo de Pedro Castillo, associado aos setores rurais.
O fantasma de Pedro Castillo e a instabilidade política contínua
A eleição de 2021, vencida por Pedro Castillo contra Keiko Fujimori, terminou com a destituição e prisão do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado. Para seus apoiadores, Castillo foi vítima do Congresso por representar a população rural e indígena.
A sucessão de Dina Boluarte, que assumiu após Castillo, foi marcada pela repressão violenta a manifestações, resultando em 49 mortes, segundo a Anistia Internacional. Sua gestão, com baixíssima aprovação, também foi marcada pela destituição pelo Congresso, seguida por outras trocas de presidentes interinos em um curto período.
O Peru não tem um presidente que cumpra mandato completo desde Ollanta Humala (2011-2016), cujo governo foi marcado pelo escândalo da Odebrecht. Humala foi posteriormente condenado por lavagem de dinheiro e está preso.
Geopolítica em jogo: o Peru e o alinhamento continental
A eleição peruana tem implicações na geopolítica sul-americana, que tem se inclinado para um alinhamento mais próximo com os Estados Unidos, como observado em países como Equador, Bolívia, Argentina e Chile.
Salvador Schavelzon avalia que uma vitória de Keiko Fujimori tenderia a reforçar esse alinhamento com os EUA e a extrema-direita continental. No entanto, mesmo uma vitória de Sánchez não significaria uma ruptura com Washington ou com governos de direita na região, dada a fragilidade dos governos progressistas atuais.
Schavelzon pondera que Sánchez, caso eleito, priorizará a consolidação de seu governo diante da forte oposição no Congresso, o que dificultará a adoção de uma nova posição geopolítica. O contexto atual e a fragilidade de seu mandato o impediriam de buscar um caminho distinto.