Tarifa Zero: Estudo da UnB revela potencial de R$ 60 bilhões e compara com Bolsa Família para impulsionar economia brasileira

Tarifa Zero no transporte público ganha força com proposta bilionária: estudo da UnB aponta impacto econômico e social sem precedentes.

Um novo estudo da Universidade de Brasília (UnB) reacende o debate sobre a tarifa zero no transporte público em todo o Brasil, apresentando a proposta como uma potencial ferramenta de distribuição de renda e estímulo econômico.

A pesquisa, intitulada “A Tarifa Zero no transporte público como política de distribuição de renda”, coordenado pelo professor Thiago Trindade, estima que a gratuidade nos ônibus, metrôs e trens das capitais e regiões metropolitanas poderia movimentar até R$ 60,3 bilhões por ano na economia brasileira, conforme divulgado pela universidade.

Essa iniciativa tem sido comparada a um “novo Bolsa Família”, não para substituir programas sociais existentes, mas para liberar uma parcela significativa da renda das famílias trabalhadoras, especialmente as de menor poder aquisitivo. O dinheiro que antes era destinado ao pagamento de passagens poderia, na prática, ser direcionado para despesas essenciais como alimentação, saúde, educação e consumo local, impulsionando a economia de forma direta.

Impacto econômico e social da gratuidade no transporte

O estudo da UnB se diferencia ao focar não apenas nos custos fiscais, mas no potencial de injeção de dinheiro na economia. Ao calcular quanto deixaria de ser gasto com passagens, os pesquisadores estimam uma “injeção real” de aproximadamente R$ 45,6 bilhões anuais, considerando as gratuidades já existentes.

Essa medida funcionaria como um mecanismo imediato de aumento da renda disponível das famílias. Milhões de trabalhadores brasileiros comprometem uma parte relevante de seus salários apenas para se deslocar até o trabalho, escola ou serviços públicos, com gastos mensais que frequentemente ultrapassam R$ 300 por pessoa, impactando significativamente o orçamento doméstico, especialmente em famílias com múltiplos trabalhadores.

Tarifa Zero versus outros programas de transferência de renda

A comparação do impacto econômico da tarifa zero com programas já consolidados no país é um dos pontos altos da pesquisa. Segundo os dados apresentados, a tarifa zero nas capitais e regiões metropolitanas teria potencial de movimentar cerca de R$ 60,3 bilhões, enquanto o Bolsa Família, nos mesmos territórios, tem um impacto estimado em R$ 57,9 bilhões.

A isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, por sua vez, geraria um impacto estimado em R$ 25,4 bilhões. Essa análise comparativa tem ampliado o debate político em Brasília, em um momento em que o governo federal já discute alternativas para a reformulação do financiamento do transporte público.

Governo Federal avalia viabilidade da tarifa zero

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria solicitado estudos sobre a viabilidade econômica da tarifa zero, e o Ministério da Fazenda está analisando modelos de financiamento para o setor. O então ministro das Cidades, Jader Filho, confirmou que o governo avalia mudanças estruturais no sistema de transporte urbano brasileiro, buscando formas de financiamento que reduzam a dependência da cobrança direta das passagens.

Atualmente, o custo operacional do transporte coletivo é majoritariamente sustentado pelos usuários, o que gera um ciclo vicioso: quanto menos passageiros utilizam o sistema, maior tende a ficar o valor da tarifa. Essa realidade se reflete na crise enfrentada pelo setor, que perdeu cerca de 30% dos passageiros entre 2013 e 2023, enquanto o número de automóveis nas ruas aumentou.

Redução da desigualdade social e racial com transporte gratuito

O estudo da UnB também destaca o impacto social da tarifa zero na redução da desigualdade. A pesquisa aponta que a tarifa pesa proporcionalmente mais para trabalhadores pobres, moradores de periferias e a população negra, grupos mais vulneráveis. A gratuidade teria, portanto, um efeito mais forte justamente sobre quem mais necessita.

Os pesquisadores classificam a tarifa zero como uma espécie de “salário indireto”, pois, embora o salário nominal permaneça o mesmo, o trabalhador teria mais dinheiro disponível no fim do mês. A desigualdade racial e territorial também entra no debate, com os reajustes constantes nas passagens afetando de forma mais intensa os moradores das periferias urbanas, limitando seu acesso a empregos, educação e oportunidades.

São Paulo lidera impacto econômico com tarifa zero

Entre as cidades analisadas, São Paulo se destaca como a mais beneficiada economicamente pela tarifa zero, com uma projeção de R$ 19,5 bilhões de injeção real na economia. Outras capitais como Rio de Janeiro (R$ 4,2 bilhões), Florianópolis (R$ 2,56 bilhões), Belo Horizonte (R$ 2,34 bilhões), Brasília (R$ 2,1 bilhões) e Salvador (R$ 2 bilhões) também apresentariam impactos significativos.

É importante notar que esses números podem ser ainda maiores, pois o levantamento não abrange os milhares de municípios menores que já possuem sistemas de transporte coletivo. Atualmente, cerca de 145 municípios brasileiros já adotam modelos de gratuidade no transporte público, beneficiando aproximadamente 8 milhões de habitantes, com relatos de aumento no uso do transporte público.

Financiamento da tarifa zero e o futuro do debate

O financiamento da tarifa zero permanece como o principal ponto de debate. Uma sugestão anterior da mesma equipe de pesquisa indicou a possibilidade de substituir o modelo atual do vale-transporte por uma contribuição empresarial fixa, inspirada em sistemas utilizados na França, o que poderia financiar a política sem a criação de novos impostos federais. As estimativas apontam para a necessidade de cerca de R$ 78 bilhões por ano para gratuidade universal em ônibus urbanos de cidades com mais de 50 mil habitantes.

A discussão sobre tarifa zero deve ganhar força no Congresso Nacional, sendo associada a propostas de combate às desigualdades sociais. Especialistas defendem que a proposta vai além da mobilidade urbana, abrangendo questões econômicas, sociais e democráticas. Enquanto o governo analisa os números, o estudo da UnB reforça a ideia de que o transporte público gratuito pode ser uma ferramenta poderosa de redistribuição de renda no Brasil.

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