Zona da Mata Renasce: Comerciantes da MG Transformam Perdas Pós-Enchentes em Histórias de Sucesso e Inovação

Empreendedores da Zona da Mata dão a volta por cima após enchentes devastadoras, mostrando a força do comércio mineiro na superação de crises.

As enchentes que assolaram a Zona da Mata de Minas Gerais em fevereiro deixaram um rastro de destruição, impactando severamente milhares de pequenos empresários. Mercadorias foram perdidas, operações interrompidas e anos de trabalho ameaçados. No entanto, a força empreendedora da região tem se mostrado mais resiliente que as adversidades.

Mesmo diante de prejuízos significativos, muitos comerciantes optaram por não desistir, transformando as perdas em oportunidades de recomeço. A capacidade de adaptação e a busca por novas soluções têm sido as chaves para a recuperação econômica da área, onde mais de 97% dos negócios são formados por microempreendedores individuais e micro e pequenas empresas.

Em cidades como Juiz de Fora e Ubá, as histórias de superação se multiplicam. Donos de pequenos negócios criaram novos formatos de venda, estabeleceram operações emergenciais e lutaram para manter seus colaboradores empregados, reafirmando a importância do empreendedorismo local. Conforme informações divulgadas pelo Diário do Comércio, essas iniciativas demonstram a capacidade de adaptação que tem sido crucial para a reconstrução econômica da região.

Marcos da Superação: Lojas que Renascem das Cinzas

Um exemplo notável é o de João Paulo Schetino, proprietário da Marcio’s Frios em Ubá. Após ter sua loja completamente destruída pela enchente, com um prejuízo estimado em R$ 5 milhões, ele não hesitou em buscar alternativas. Schetino abriu a Marcio’s Express, uma operação menor e focada na venda de carnes, que permitiu a manutenção dos empregos de seus 50 funcionários.

Apesar de o faturamento da nova loja ainda não atingir os patamares anteriores, Schetino a considera fundamental para a sobrevivência do negócio e para evitar demissões em massa. Ele planeja manter a filial em funcionamento mesmo após a reabertura da matriz, visando uma recuperação sustentável em até cinco anos.

Inovação e Persistência no Comércio de Tintas

Em Juiz de Fora, o casal Ive de Assis e Menon de Almeida enfrentou prejuízos de R$ 96 mil em sua loja de tintas, a Decor Colors. Para contornar a situação, eles adotaram um modelo de vendas por encomenda, adquirindo os produtos apenas após a confirmação dos pedidos dos clientes. Inicialmente desafiador, o formato se mostrou eficaz.

Nos primeiros dias, apenas três clientes aderiram, mas a persistência do casal logo trouxe resultados. Em poucas semanas, o número de encomendas aumentou significativamente, permitindo que as viagens para reposição de estoque fossem planejadas de forma mais eficiente. Essa estratégia, segundo Almeida, foi o que salvou a loja.

O faturamento da Decor Colors em março registrou um crescimento de 239,09% em relação a fevereiro, demonstrando a força da adaptação. Atualmente, as vendas por encomenda representam cerca de 75% do faturamento mensal, evidenciando que a crise abriu caminho para um novo modelo de negócio.

Desafios Persistentes: A Luta pela Sobrevivência

Nem todos os comerciantes conseguiram se recuperar com a mesma agilidade. Marta Gomides, dona de uma gráfica em Ubá, sofreu perdas totais, estimadas em R$ 2 milhões. Sua principal impressora está operando de forma precária, exigindo reparos constantes que custam entre R$ 10 mil e R$ 15 mil.

Apesar de não ter recorrido a empréstimos bancários e manter os pagamentos em dia com suas reservas pessoais, Marta está há três meses com faturamento praticamente zerado e uma folha de pagamento de quase R$ 60 mil. Ela lançou uma vaquinha online que arrecadou R$ 44,5 mil, valor utilizado para a compra de uma nova impressora, uma de suas últimas apostas para evitar o fechamento definitivo.

Anderson Gonçalves, dono de uma esfirraria em Ubá, viu sua receita despencar 70% após as enchentes. Com o aluguel atrasado e o movimento reduzido drasticamente, ele estima que conseguirá manter o negócio por, no máximo, mais três meses se o cenário não melhorar. Gonçalves tem mantido as despesas com uma pizzaria itinerante, sua segunda atividade.

Apoio Institucional e a Busca por um Futuro Firme

O Sebrae Minas tem oferecido consultorias gratuitas para auxiliar empresários na elaboração de planos de ação para a retomada das atividades. O programa busca orientar na reorganização financeira, redefinição de prioridades e fortalecimento da gestão. Entre abril e maio, cerca de 210 negócios do comércio em Juiz de Fora e Ubá foram atendidos.

A principal demanda dos empresários atendidos pelo Sebrae é o acesso ao crédito. O Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (Fampe) tem sido fundamental para facilitar linhas de crédito junto aos bancos, oferecendo garantias. Bancos públicos e privados, incluindo cooperativas de crédito, também têm oferecido condições mais favoráveis.

Os prefeitos das cidades afetadas também têm implementado medidas de apoio. Em Juiz de Fora, a Sala do Empreendedor tem orientado sobre linhas de crédito emergenciais. Ubá criou o Fundo de Amparo aos Empresários (Faeclu), concedendo auxílio de R$ 10 mil sem necessidade de devolução, e executa obras de reconstrução, como a revitalização do Calçadão Deputado Ibrahim Jacob.

Matias Barbosa iniciou o pagamento do Auxílio Emergencial Municipal, com benefícios de R$ 1,5 mil para famílias e R$ 5 mil para comerciantes. A expectativa é que, até outubro, o Sebrae tenha atendido cerca de 500 empresas, permitindo um balanço mais efetivo dos resultados. A recuperação completa da economia regional, no entanto, é vista como um processo de longo prazo, com estimativas apontando para 2026 ou 2027 para um equilíbrio financeiro mais consistente, conforme apontam representantes de sindicatos e associações comerciais.

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