Você sabe de onde veio o @? A história que começou há 3 mil anos
Poucos símbolos são tão familiares e, ao mesmo tempo, tão misteriosos quanto o @. Ele aparece diariamente em endereços de e-mail, redes sociais e etiquetas de produtos, mas sua origem remonta a milhares de anos — muito antes da era digital. O que hoje é conhecido como “arroba”, “at” ou “a comercial” carrega uma história de cerca de 3 mil anos, que atravessa impérios, manuscritos medievais, o comércio marítimo e a revolução da internet.
Neste mergulho histórico, vamos entender como o @ surgiu, como se transformou em um símbolo global e por que ele se tornou um dos ícones mais duradouros e universais da comunicação humana.
As origens remotas: o “@” antes do alfabeto moderno
A história do símbolo começa muito antes do teclado. De acordo com especialistas em paleografia — o estudo da escrita antiga — o @ tem raízes que remontam à Idade Média, quando monges copistas procuravam abreviar palavras para economizar tempo e espaço em pergaminhos.
Uma das hipóteses mais aceitas é que o símbolo surgiu como uma contração da preposição latina “ad”, que significa “a” ou “para”. Nos manuscritos, a letra “a” era escrita sobre a “d”, formando algo muito próximo do desenho do “@” moderno. Essa forma simplificada facilitava a escrita manual em um período em que cada caractere precisava ser copiado cuidadosamente à mão.
Arqueólogos e linguistas encontraram evidências de símbolos semelhantes em documentos comerciais e religiosos datados de mais de mil anos atrás, usados para indicar direção, destino ou associação — funções muito próximas das que o “@” exerce hoje nos endereços de e-mail e nas redes sociais.
A “arroba” medieval: medida de peso e unidade de comércio
Com o passar dos séculos, o símbolo ganhou um novo papel: o do mundo mercantil. Durante o comércio entre os povos da Península Ibérica, o termo “arroba” — do árabe ar-rubʿ, que significa “a quarta parte” — passou a representar uma unidade de medida de peso e volume.
Na Espanha e em Portugal, uma arroba equivalia aproximadamente a 11,5 quilos, embora o valor variasse conforme a região e o tipo de produto. Quando o comércio marítimo se expandiu para a América Latina, a unidade viajou junto: o Brasil, por exemplo, adotou o símbolo @ para indicar “arroba” em registros comerciais, especialmente no transporte de café, açúcar e gado.
Assim, muito antes de se tornar o símbolo da internet, o @ já aparecia em documentos contábeis e notas fiscais do século XIX. Ele representava não uma letra, mas uma quantidade — algo tangível e mensurável.
Um exemplo histórico curioso vem de um documento espanhol de 1536, considerado uma das primeiras aparições conhecidas do símbolo “@” impresso: um registro de envio de trigo do rei da Espanha para a Itália, em que o símbolo representava a unidade “arroba”.
O salto para a escrita comercial moderna
Com o avanço da imprensa e da mecanização da escrita, o símbolo “@” começou a aparecer com mais frequência em máquinas de escrever. Nos Estados Unidos, tipógrafos do século XIX o incorporaram como abreviação da palavra inglesa “at” — usada para indicar o preço ou o local em transações comerciais.
Em anúncios e catálogos, era comum ver expressões como “10 apples @ $1 each” (“10 maçãs a 1 dólar cada”). O símbolo servia, portanto, como uma forma de simplificar o cálculo de preços unitários, ganhando um lugar definitivo nos teclados de máquinas de escrever e, mais tarde, nos computadores.
Quando a IBM e outras fabricantes começaram a padronizar seus teclados nas décadas de 1940 e 1950, o @ se tornou um símbolo fixo, mesmo sem um uso cotidiano tão difundido. Ironia do destino: foi essa permanência que o salvou da extinção e o preparou para o salto à era digital.
A revolução do e-mail: o @ ganha nova vida
A virada definitiva aconteceu em 1971, quando o engenheiro norte-americano Ray Tomlinson trabalhava em um projeto experimental de comunicação entre computadores conectados em rede — o embrião da internet.
Tomlinson precisava de um símbolo para separar o nome do usuário e o nome do computador (ou servidor) em um endereço eletrônico. Ele procurava algo que:
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Não fosse uma letra ou número (para evitar confusão);
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Não tivesse uso comum em nomes próprios;
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Transmitisse a ideia de localização ou relação, como “em” ou “no”.
O símbolo perfeito já estava no teclado: o @. Na lógica de Tomlinson, o endereço “user@host” poderia ser lido como “usuário em servidor”.
Foi assim que o @ se tornou o símbolo do e-mail e, posteriormente, um ícone global da internet. Sem grandes alardes, um caractere de origem medieval foi reinventado para representar um dos maiores avanços da comunicação humana.
Do e-mail às redes sociais: o símbolo da era digital
Nos anos 2000, o símbolo ganhou novo protagonismo com o surgimento das redes sociais. O Twitter (atual X), por exemplo, popularizou o uso do @ seguido de nomes de usuário para marcar pessoas em postagens. Em pouco tempo, a prática se espalhou para plataformas como Instagram, Facebook e TikTok.
Hoje, o “arroba” é uma ferramenta de identidade digital, usada para identificar e conectar milhões de pessoas em diferentes plataformas. O símbolo deixou de ser apenas um separador de endereços e passou a representar presença online, interação e pertencimento.
Curiosidades linguísticas: o “arroba” pelo mundo
O curioso é que, apesar de ser um símbolo universal, o @ recebe nomes diferentes ao redor do planeta — muitos deles inspirados em sua aparência.
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Brasil e Portugal: “arroba”, herança direta da antiga unidade de medida;
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Estados Unidos e Reino Unido: “at sign” ou apenas “at”;
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Itália: “chiocciola”, que significa “caracol”;
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Suécia: “snabel-a”, literalmente “a com tromba”;
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Israel: “strudel”;
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Alemanha: “Klammeraffe”, ou “macaco-aranha”;
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China: “xiao laoshu”, o “pequeno rato”.
Essa diversidade de nomes mostra como o símbolo foi reinterpretado culturalmente ao redor do mundo, ganhando significados visuais e linguísticos únicos.